Israel, Estado terrorista

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Publicado quarta-feira, 17 de setembro de 2003 as 17:23, por: cdb

Imagine se o vice-presidente da Venezuela, José Vicente Rangel, declarasse que “o assassinato do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, é uma possibilidade”, pelo papel que jogou nas sucessivas tentativas de desestabilização e até mesmo no golpe militar contra o presidente Hugo Chávez. E imagine se um dos mais importantes jornais do país, identificado com o governo – se houvesse -, tivesse proposto explicitamente o assassinato do primeiro mandatário norte-americano?

Independente de não ter razões para uma proposta tão drástica, Rangel poderia acusar o presidente Bush como co-responsável pelos planos dos que o tentam derrubar, o que provocaria uma chacina contra as organizações populares venezuelanas e jogaria o país num caos semelhante ao existente no Iraque atualmente.

Caso isso acontecesse, o governo dos EUA preparariam imediatamente tropas para invadir a Venezuela, alegando se tratar de um Estado terrorista, que colocaria em risco a segurança dos EUA. Outros Estados, menos radicais, imediatamente pediriam sanções drásticas para o governo venezuelano e proporiam que Hugo Chávez fosse acusado de terrorismo no Tribunal Penal Internacional.

O vice-primeiro ministro de Israel afirmou que “o assassinato de Iasser Arafat é uma possibilidade”. O Jerusalem Post, em editorial de 10 de setembro deste ano, escreve: “O mundo não irá nos ajudar; nós precisamos ajudar-nos a nós mesmos. Precisamos matar tantos líderes do Hamas e do Jihad quanto possível, o mais rapidamente possível, enquanto minimizamos os danos colaterais, mas não deixando que esses danos nos imobilizem. E precisamos matar Iasser Arafat, porque o mundo não nos deixa alternativa.”

Que elementos mais são necessários para caracterizar Israel como Estado terrorista, levar seu primeiro-ministro Ariel Sharon – que já dispunha de dossiê suficiente antes disso – ao banco de acusados do Tribunal Penal Internacional e tomar medidas imediatas, com tropas da ONU, para impedir que esse novo crime seja cometido?

Quando se levanta a condenação à decisão do governo de Israel de expulsar Arafat, a atitude do governo Sharon é a de extremar sua posição, aventando publicamente a possibilidade de assassínio de um chefe de Estado reconhecido pelas Nações Unidas na mesma condição de Bush, de Jacques Chirac e de Luiz Inácio Lula da Silva. Se não tomar nenhuma atitude, a comunidade internacional e, em especial a ONU, serão cúmplices de mais um crime contra a humanidade por parte do governo de Israel.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História” (Boitempo Editorial) e “Século XX – Uma biografia não autorizada” (Editora Fundação Perseu Abramo).