Iraque urgente: o colapso

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Publicado sábado, 21 de outubro de 2006 as 12:10, por: cdb

Faltam apenas duas semanas para as eleições de meio-de-mandato (referência ao mandato presidencial) nos Estados Unidos. Trata-se de eleição de grande repercussão em virtude de dois pontos: de um lado, joga-se o controle das duas câmaras, e, portanto, da paralisia ou avanço das políticas governamentais. De outro lado, sendo a última eleição do segundo mandato de Bush, definir-se-á o cenário das próximas eleições presidenciais. Os Republicanos precisam de um “campeão” de votos para polarizar o eleitorado e abrir caminho para uma nova sucessão republicana. Contudo – e em especial em razão da do “envelhecimento” da equipe de Bush – nenhum nome se destaca naturalmente. A velha prática norte-americana de apresentar o vice-presidente como “delfim” não cabe na figura velha, adoentada e desgastada, do vice-presidente Dick Cheney. O único nome com algum brilho seria da secretária de Estado Condoleeza Rice – nome por demais “gauche” para os republicanos de velha estirpe: negra, mulher e solteira é um conjunto de coisas que desagrada a cúpula do partido.

Mas como então ganhar as eleições? Jogando fortemente nos medos americanos: imigração ilegal – daí a corrida para a aprovar o “muro” na fronteira do México – e na permanente ameaça do terrorismo internacional. Contudo, fatos novos tornam tal operação muito difícil. De um lado, o teste nuclear norte-coreano e, de outro, a ofensiva do Ramadã no Iraque.

Bush e os fracassos em política externa
Depois de quase sete anos de ameaças e de negativa de negociar diretamente com Pyongyang – ao contrário da Administração Clinton que havia congelado o programa coreano de armas de destruição em massa e de mísseis – Bush encontra-se de em face de um desafio de grandes proporções e, paradoxalmente, sem ferramentas para reverter ou mesmo conter os ânimos norte-coreanos.

No Iraque, o sonho de converter o país “numa vitrine da democracia”, conforme defendida pela equipe presidencial (D.Cheney, D. Rumsfeld, John Bolton, P. Wolfowitz, J. Negroponte e Richard Perle) revelou um imenso potencial de tornar-se um novo Vietnã. Trata-se de uma guerra onde os objetivos políticos centrais – e, portanto, os únicos objetivos reais de uma guerra, conforme Clausewitz – já foram perdidos. No atual momento os Estados Unidos aferram-se em manter alguns objetivos militares capazes de impedir o desmoronamento completo da institucionalidade pós-Saddan Hussein no país.

“O objetivo político central – usar o Iraque como país-pivot para remodelação ‘democrática, liberal e secular’ do Grande Oriente Próximo” afigura-se, na expressão do estrategista norte-americano Anthony Cordesman, “uma patética fantasia neoconservadora desde o início”. Hoje, os estrategistas norte-americanos buscam, já com boa dose de desesperança, uma saída honrosa do país, para além do aeroporto internacional de Bagdá.

Tal fantasia, contudo, já custou a vida de 600 mil iraquianos, a emigração de outros 500 mil – os mais bem formados e competentes quadros da sociedade iraquiana – além de mais de 2770 mortos americanos e 20.687 feridos. Tais dados fazem de Bagdá uma reedição de Saigon.

Uma guerra presidencial
Os historiadores militares americanos caracterizam tradicionalmente as guerras travadas pela América em duas categorias: as guerras nacionais, impostas ao país – como a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, bem como a Guerra da Coréia (1951-1953), e a Guerra do Iraque de 1991 (para “libertar” do Kwait), na qual os norte-americanos foram puxados para dentro do conflito – e as guerras presidenciais, aquelas desejadas e buscadas pelos presidentes americanos, como foi o caso da Guerra Hispano-Americana, em 1898, e a Guerra do Vietnã (1965-1975) ou de Kossovo, em 1999. Ora, a Guerra do Iraque, de 2003, é um caso notório de guerra desejada, imposta pela imperiosa e imperial vontade da Administração Bush. Deixando de lado a precisão de tal tipologia, podemos dizer que nas guerras presidenciai