Iraque quer explicação para mortes em prisão norte-americana

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado terça-feira, 1 de fevereiro de 2005 as 19:02, por: cdb

Militares norte-americanos devem ser processados se ficar provado que eles usaram força excessiva para controlar um motim em uma prisão, o que resultou na morte de quatro detentos, disse na terça-feira o ministro iraquiano dos Direitos Humanos.

Bakhtiar Amin afirmou acreditar que dois soldados dos EUA abriram fogo contra os amotinados, mas não sabe por quê. Ele enviou uma delegação ao quartel no sul do Iraque para investigar.

– Se houve um engano, os responsáveis devem ser responsabilizados – Amin à Reuters. – Se estivermos convencidos de que não houve justificativa para o grau de força usado, queremos que eles sejam julgados. É isso que os norte-americanos também dizem.

A rebelião estourou na segunda-feira no quartel Bucca, perto da fronteira com o Kuweit, onde há cerca de 5.000 supostos insurgentes detidos — é o principal campo de prisioneiros do país.

Os detentos começaram a atirar pedras e a improvisar armas depois de uma inspeção de rotina em um dos dez pavilhões do quartel, segundo os militares dos EUA. A violência em seguida se espalhou para outros três pavilhões.

Os militares dizem que os soldados balearam apenas quatro homens entre centenas de amotinados. Seis pessoas ficaram feridas, cinco das quais pelos guardas. Três dos feridos foram hospitalizados e não correm risco.

Em nota intitulada “Sobre os presos muçulmanos em Basra”, divulgada pela Internet, o militante jordaniano Abu Musab Al Zarqawi, o “representante” da Al Qaeda no Iraque, prometeu retaliação pelas mortes.

– Qual foi a falta cometida por esses prisioneiros indefesos para que vocês os tratassem dessa forma? – diz a nota – Tiranos da nossa era, não deixaremos que esses seus crimes passem impunes — vamos ajustar as contas.

Os EUA normalmente citam o quartel Bucca como um exemplo de boas condições, uma espécie de “antídoto” contra as chocantes imagens de torturas cometidas na prisão de Abu Ghraib, perto de Bagdá.

Nenhum norte-americano ficou gravemente ferido durante a rebelião, que durou 45 minutos, segundo o tenente-coronel Barry Johnson. “Ainda não temos um motivo claro para os tumultos, e estamos aguardando um relatório completo,” disse Johnson, porta-voz do sistema carcerário dos EUA no Iraque.

Os militares dizem que a tensão entre sunitas e xiitas é crescente entre os presos do quartel Bucca desde o ramadã (mês sagrado dos muçulmanos), no final de 2004, mas essa não foi necessariamente a causa da rebelião.

Não foi a primeira vez que soldados dos EUA dispararam contra presos iraquianos. Em novembro de 2003, três detentos morreram desta forma em um motim em Abu Ghraib.

Alguns presos estão detidos há mais de um ano atrás das cercas de arame farpado do quartel Bucca. Seus casos são examinados a cada três ou quatro meses por autoridades norte-americanas e iraquianas.

Johnson disse que a tropa que fazia a guarda é parte de uma unidade recém-chegada ao Iraque.

Ele disse não saber também se o tumulto teve relação com a eleição de domingo. Os milhares de prisioneiros no Iraque não tiveram direito a voto.