IRAQUAITI

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Publicado segunda-feira, 12 de abril de 2004 as 09:38, por: cdb

“Ontem, tropas brasileiras dispararam, por solicitação do comando militar norte-americano, matando 15 civis haitianos. Vinte soldados brasileiros ficaram feridos, todos sem gravidade, mas a ordem de desalojar os centenas de haitianos que haviam tomado uma das pontes de acesso a Porto Príncipe foi cumprida com sucesso. Entre os mortos haitianos havia uma mulher e seus dois filhos menores.”

Felizmente essa notícia não é verdadeira. Mas infelizmente pode vir a ser. Os italianos estão sofrendo em carne própria o que significa seu governo haver enviado tropas para uma missão “pacífica” no Iraque. Nesta semana, 15 civis iraquianos foram mortos em ação do exército italiano a pedido do comando militar norte-americano. Os Estados Unidos solicitaram o desalojo dos iraquianos que haviam tomado pontes que bloqueavam o acesso a uma cidade do interior do país.

O envio foi resultado da associação do primeiro ministro Berlusconi com George Bush, aliança que permitiu que italianos fossem responsáveis pelo derramamento de sangue de centenas de iraquianos.

O governo brasileiro, em princípio, respondeu positivamente à solicitação norte-americana para o envio de tropas brasileiras para uma missão “pacífica” no Haiti. Militares dos EUA já dispararam abertamente contra haitianos que resistem à ocupação do seu país, produzindo vários mortos. O governo Bush quer que o Brasil seja parceiro nessa nova intervenção militar norte-americana, enquanto o atual interventor já afirma que não há condições de se realizar eleições no país antes de dois anos, configurando plenamente a ocupação militar do Haiti.

O Brasil não tem nada a fazer lá, mesmo se os EUA solicitam, como prova de que o Brasil seria um membro “responsável” do Conselho de Segurança da ONU. Não é para esse tipo de participação internacional que o país reivindica seu ingresso no Conselho, mas para lutar contra a política imperial intervencionista dos EUA, que tem feito o mundo mais perigoso do que antes de 11 de setembro de 2001.

O Brasil não deve enviar tropas ao Haiti, não deve repetir a malfadada experiência de ter mandado tropas à República Dominicana durante a ditadura militar, para impedir um governo democrático de tomar posse e exercer legitimamente seu governo. Agora, com um governo democraticamente eleito, o Brasil não pode compactuar com mais essa aventura militar norte-americana, que se sabe onde começa e também se sabe onde termina, como o Iraque e o massacre feito pelas tropas italianas sobre civis iraquianos demonstram.

Para que nunca tenhamos que ler uma notícia como aquela que os italianos tiveram que ler.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História