Irados comunicadores nativos

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Publicado quinta-feira, 27 de setembro de 2001 as 17:30, por: cdb

Domingo 16 de setembro, noite. no vídeo, close da expressão histórica do presidente. Não é que a fisionomia do imperador se caracterize pela mobilidade e pela intensidade, mas o tom da sua fala expõe a imponência do momento. Frederico Barba-Roxa não seria mais convincente ao partir para sua Cruzada. A terceira. Na qual morreu afogado, ao atravessar um rio, de armadura e tudo.
Bush, de fato, anuncia mais que a guerra, a cruzada contra o terrorismo. E garante: “Mostraremos que somos a mais forte nação do mundo”. Como duvidar dele? Corte para Manhattan Connection, o célebre programa global. Ali, pelo jeito, ninguém duvida.

É certo, ao menos, que dois dos protagonistas do programa estão mais irados do que o próprio presidente dos Estados Unidos, mesmo porque dispõem de maior mobilidade facial e sabem usá-la com mestria consumada. Não são exemplos isolados da cólera que se apossou de vários comunicadores nativos diante dos atentados de Nova York e Washington.
Corte para as páginas mais cotadas da imprensa brasileira no fim de semana passado. A leitura revela que o Grande Irmão do Norte e seu presidente contam com algo além, bem além, da solidariedade da maioria dos editorialistas e colunistas verde-amarelos. É dedicação pronta e irrestrita, adesão comovida, apoio total. Não ficaríamos surpresos se alguns tomassem em armas e partissem para a cruzada.
Há também quem se insurja contra a suposição de que extremistas de direita americanos tenham participado dos atentados. Não há provas a respeito, talvez se trate de hipótese muito apressada. Mas faltam provas a respeito de coisas mais, e neste nosso mundo cada vez mais aparentado com o cinema dos efeitos especiais aconselha-se avaliar todas as possibilidades.
Por exemplo: não soa estranho que os serviços secretos americanos tenham sido tomados de surpresa – tão de surpresa, digamos assim? Não faltaram as comparações com o ataque japonês a Pearl Harbor. Investigações recentes revelaram, entretanto, que uma agressão nipônica era esperada pelo governo de Roosevelt.
Por que nada se fez para impedi-la? Eis aí uma grave pergunta, cuja resposta poderia ser a seguinte: Washington preferiu conveniências políticas ao sacrifício de tantas vidas e a ingentes danos materiais. A história conta inúmeros episódios semelhantes, e neles naufragam os chamados valores éticos.

Vale, de todo modo, encarar os fatos atuais de um ponto de vista jurídico, à luz de uma visão que deve pesar nas análises das chancelarias ocidentais. Se esse enredo acabasse em um tribunal, por enquanto não seria possível condenar Osama bin Laden. Ninguém pode ser alvejado pela Justiça na base da probabilidade, por mais forte. Até quando não aparecerem provas, in dubio pro reo.
É admissível que as provas surjam. Mas haverá outros motivos de resistência à adesão militar do Ocidente à cruzada de Bush. Os principais países europeus hospedam grandes comunidades de origem árabe, têm boas relações com o Oriente Médio e o Norte da África, inquietam-se com a incógnita chinesa. Etc., etc.
As Cruzadas se estabeleceram em cima do consenso. Entre o Sacro-Romano Império e o papa, com o apoio dos soberanos europeus e de suas cortes feudais. A tarefa de Bush é bem mais difícil. Até por causa disso, um punhado de bravos comunicadores, a bem da melhor informação, quem sabe devesse moderar a sua cólera.

(Extraído da edição 26 de setembro de 2001)