Início da ajuda humanitária no Iraque foi um desastre, diz agência

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Publicado quinta-feira, 27 de março de 2003 as 10:55, por: cdb

A tão esperada ajuda humanitária à população da cidade de Safwan, na fronteira do Iraque e do Kuwait, foi um “desastre”. A declaração foi dada pelo vice-diretor do Crescente Vermelho, a organização responsável pela distribuição dos alimentos.

Hilal Al-Sayer disse à BBC que os alimentos, que incluíam refeições prontas, arroz, óleo, açúcar e cereais simplesmente não chegaram aos destinatários porque foram roubados depois de terem deixado o Kuwait.

“Fomos assaltados por homens nas estradas e perdemos o controle dos caminhões, que foram esvaziados. Por isso, o alimento não chegou a mulheres e crianças que precisam dele”, disse Al-Sayer.

De acordo com ele, as tropas britânicas aconselharam o Crescente Vermelho (o equivalente local da Cruz Vermelha) a abandonar os caminhões cheios de comida, porque seria perigoso enfrentar os saqueadores. Nos caminhões, haviam cerca de 45 mil refeições prontas.

Agressão

“Nós não esperávamos tamanha agressão. Um de nossos voluntários me ligou dizendo ter sido agredido na cabeça pelos saqueadores. Tanto desespero mostra como essas pessoas viviam na pobreza”, contou o representante do Crescente Vermelho.

Desde o início da guerra, comboios da organização continuam tentando atravessar as áreas do Iraque ocupadas pelos americanos, o que é sempre adiado por razões de segurança.

A chegada de ajuda a Safwan era considerada como um sinal de que os governos americano e britânico estariam dispostos a cumprir sua promessa de colaborar com a ajuda humanitária à população iraquiana.

No entanto, apenas dois caminhões conseguiram chegar à população até agora. Segundo Al-Sayer, as famílias locais estão “aproveitando o máximo da ajuda”.

Ele diz ainda esperar que cenas como a de quarta-feira não se repitam.

“A ajuda estava lá, mas não fomos organizados o suficiente. Esperamos melhorar”, afirmou.

Dificuldades

A área na fronteira próxima a Safwan e Umm Qasr – onde tropas americanas e britânicas ainda lutam contra iraquianos – não é densamente povoada.

Se for difícil levar ajuda a essa região, as organizações acreditam que dificilmente suprimentos chegarão a cidades maiores.

Outras agências humanitárias atuantes na região afirmam que o problema em Safwan, na quarta-feira, despertou algumas “preocupações”.

Eilleen Burke, da ONG Salvem as Crianças, contou que a sua organização realizará um plano detalhado sobre a ajuda antes de entrar na região.

“Nós vamos identificar as famílias mais necessitadas e focalizar a nossa ajuda, e ter certeza de que os beneficiados são realmente os que precisam”, disse Burke.

Informações

As violentas batalhas no sul do Iraque fizeram com que muitos integrantes de organizações humanitárias deixassem a região, “o que torna difícil saber quem realmente precisa de ajuda”, conta Cassandra Nelson, da Mercy Corp. “Nós estamos nos baseando em informações que vão sendo repassadas”.

Os iraquianos estão contando com essa ajuda. Antes da guerra, a ONU estava distribuindo toneladas de alimentos diariamente no porto de Umm Qasr.

As batalhas suspederam a operação da ONU e o porto ainda não foi aberto completamente. Informações também sugerem que Safwan ainda não é segura para que ajuda seja levada até lá.

“A segurança é a nossa maior preocupação. Os militares deviam ter a segurança como sua prioridade, para levarmos ajuda humanitária”, diz Nelson.

Muitas agências humanitárias afirmam que não desejariam mandar caminhões escoltados por forças americanas, com medo de que isso destrua a imparcialidade e a neutralidade das agências humanitárias na guerra. No entanto, seria muito perigoso não fazê-lo.

“As informações que chegam até nós é que a situação não é boa. Se já está assim na fronteira, eu só imagino como está mais para o interior do Iraque”, afirma Nelson.