Inflação assusta e alimenta apostas em nova alta de juros

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Publicado quarta-feira, 13 de novembro de 2002 as 00:17, por: cdb

A divulgação hoje de novos índices de inflação, que mostram indícios de repasse dos preços do atacado para o consumidor, acendeu o temor de uma nova alta de juros no mercado financeiro. Os juros básicos estão em 21%.

Resultado: a Bovespa caiu 1,66% e o dólar comercial subiu 2,79%, vendido a R$ 3,61.

O IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna), da FGV, divulgado hoje à tarde, apontou inflação de 4,21% -a maior alta desde os 4,44% de fevereiro de 1999, mês seguinte à desvalorização do real.

Ontem, a primeira prévia do IGP-M em novembro, da mesma FGV, ficou em 2,31% – maior índice de primeira prévia desde a criação do real, em 1994.

Já o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), do IBGE, que serve de parâmetro para as metas inflacionárias do governo, subiu 1,31% no mês passado – a maior alta desde julho de 2001. E a Fipe informou nesta terça-feira que seu IPC (Índice de Preços ao Consumidor), que mede a inflação na região metropolitana de São Paulo, subiu 1,55% na primeira prévia de novembro.

Esses indicadores ainda não computaram o impacto do último aumento dos combustíveis, que entrou em vigor desde o dia 4.

O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) se reúne na próxima semana, dias 19 e 20, para decidir o destino da taxa básica de juros do país, a Selic, usada em empréstimos interbancários de um dia.

Hoje a taxa é de 21% ao ano, após sofrer um aumento de três pontos em outubro, em uma reunião extraordinária do comitê convocada especialmente para colocar freios na inflação diante da alta do dólar.

”Se houver aumento [dos juros], terá que ser um choque, porque aumentaram três pontos e viram que não adiantou muito. Agora teriam que aumentar uns cinco pontos”, avalia Miriam Tavares, diretora da corretora AGK.

Juros
Os juros são usados pelo governo como instrumento para conter a pressão inflacionária. Isso porque, com juros mais altos, o consumidor gasta menos e as altas de preços acabam sendo naturalmente inibidas. No mercado futuro, a taxa para dezembro já vale 21,82%.

”A princípio, não achávamos [que fosse haver mais uma aumento dos juros], mas se continuar da forma que as coisas estão indo, se [o Copom] ver que a inflação não está arrefecendo e o dólar está subindo, eles poderão voltar a aumentar os juros sim. O Copom não iria vacilar”, diz Miriam.

Para a consultoria britânica Dresdner Kleinwort Wasserstein, braço do Dresdner Bank, os juros podem subir sobretudo por causa da pressão sobre o bolso do consumidor, que começou a aparecer nas últimas semanas, depois de meses sem repasse das altas no atacado.

”O problema não é só o crescimento da inflação no atacado. Há crescentes evidências que sugerem que os índices de preço ao consumidor foram contaminados pela recente alta do dólar”, diz a consultoria em relatório a clientes assinado por Neil Dougall, chefe de pesquisa econômica para mercados emergentes. ”Erroneamente, isso está acontecendo mesmo com a fraqueza da demanda interna [de consumo]”.

As apostas ainda não são fechadas porque o dólar vinha caindo desde a eleição presidencial, no fim de outubro. Entretanto, hoje a cotação voltou a subir, praticamente anulando a queda no mês.

Segundo analistas, a decisão do Copom deve depender, basicamente, do comportamento do dólar até a próxima quarta-feira, quando será anunciada a decisão.

”Se o real não se recuperar mais [até a próxima semana], as chances para um novo e forte aumento da Selic vão aumentar”, diz a consultoria.