Indústria precisa recuperar mercado interno, diz economista

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Publicado quinta-feira, 10 de novembro de 2005 as 12:40, por: cdb

A valorização da moeda brasileira diante do dólar está provocando uma desaceleração das vendas para o exterior; com isso, também cresce menos a atividade do industrial do país, que é muito dependente das exportações. O economista Claudio Dedecca faz essa avaliação com base nos dados de duas pesquisas, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), ambas divulgadas esta semana. De acordo com dados do boletim Indicadores Industriais da CNI, o mês de setembro registrou a a terceira queda consecutiva nas vendas reais: 0,47% em comparação a agosto. Em relação ao mesmo período do ano passado, a queda foi de 1,07%.

– A única probabilidade da indústria manter o ritmo de crescimento nos próximos meses e para 2006 será através de uma recuperação do mercado interno – avalia Dedecca, professor do Departamento de Economia do Trabalho da Universidade de Campinas (Unicamp).

Para que isso ocorra, Dedecca considera essenciais ações de governo, como a redução significativa da taxa do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) – usada como referência para os juros cobrados pelos bancos no país. Outra medida defendida pelo economista é a ampliação do crédito e recuperação do nível de renda da população. Sem isso, “dificilmente a indústria terá um crescimento de médio e longo prazo a taxas razoáveis”, diz ele.

Segundo Dedecca, o que se pode avaliar “é que a economia brasileira está fortemente dependente das exportações”.

– O mercado interno vem tendo uma recuperação muito lenta e pouco dinâmica. De modo que se há uma desaceleração das exportações, o efeito negativo é imediato sobre o índice das atividades internas. Cada vez fica mais visível que é enorme a probabilidade da valorização cambial afetar a atividade industrial interna. Esse é o principal motivo da desaceleração da atividade do setor industrial – disse.

De acordo com o economista, os dados da CNI também revelam que pela primeira vez em mais de dois anos, a industria demitiu mais do que empregou. Isso também se deve à desaceleração nas exportações e à valorização cambial.

– A indústria está sendo dinamizada pelo mercado externo. Um mercado externo que cresceu bastante e que tende a ter essa taxa de crescimento desacelerada, com um câmbio que lhe é desfavorável. A única probabilidade da indústria manter o ritmo de crescimento nos próximos meses e para 2006 será através de uma recuperação do mercado interno. Acontece que não há sinais de que isso venha a ocorrer em um ritmo suficiente que compense o ritmo das exportações. Os dados da CNI são decorrentes dos limites do processo de expansão da indústria. Uma expansão que depende do mercado externo e que obviamente começa a encontrar restrições crescentes, em especial pela valorização cambial.

Apesar das condições pouco favoráveis à atividade industrial, comenta Dedecca, a massa real de salários continuou se expandindo em setembro, como já vem acontecendo há sete meses. Ele aponta duas razões para o fato:

– A primeira delas foi a queda dos preços em um período mais recente, que obviamente favoreceu a evolução do salário real. Portanto, há efeitos positivos sobre a massa de salários. Outro elemento diz respeito às negociações coletivas que, neste ano, tem mostrado resultados razoáveis em termos de recuperação da inflação passada e até de ganhos reais no setor industrial.