Índios à míngua e jornalistas expulsos em conflitos pela terra

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Publicado sábado, 17 de dezembro de 2005 as 16:44, por: cdb

A miséria bate às portas da tribo guarani-kaiowá da Terra Indígena Nhande Ru Marangatu, região de Ponta Porã, Mato Grosso do Sul. Expulsos de suas terras nesta quinta-feira à noite, o dia amanheceu, neste sábado, sem esperanças para os cerca de 300 índios que ainda não sabem exatamente para onde ir. À beira de  uma estrada vicinal, a poucos quilômetros de onde viviam, não há brado de guerra. Não se vêem sinais de desespero e revolta. Apenas uma tristeza infinita, agravada pela fome de três dias, assoma um grupo disperso de homens, mulheres e crianças.

Não lhes restaram sequer as armas mais rudimentares, com as quais sobreviveram durante todos esses milênios. A Polícia Federal expulsou os nativos desarmados e até os jornalistas que cobriam o ato determinado pelo Supremo Tribunal Federal. Segundo testemunhas, dois jornalistas holandeses foram detidos pela PF. Eles realizavam na cobertura dos fatos durante a reintegração de posse de três fazendas, no município de Antônio João. Ambos tinham vistos de turistas, mas trabalhavam como freelancers na cobertura dos conflitos de terra que ocorrem naquela região do país, fronteira do Brasil com o Paraguai. Tetra Anganieta Spreij e Jefrim Rothuizen foram detidos pelo delegado federal Jonas Cleber Rossatti. Ambos se identificaram como jornalistas da TV estatal holandesa e estavam desempenhando função remunerada, o que não é permitido ao turista estrangeiro no Brasil. Cada jornalista foi multado em R$ 414 e, segundo afirmou Rossatti, devem ser expulsos do país nas próximas horas.

A liminar de reintegração de posse da área, expedida pelo 3º Tribunal Regional Federal de São Paulo em beneficio dos fazendeiros, tem como precedente uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de julho passado. Contestando a validade dos estudos antropológicos da Funai que levaram à demarcação da TI, os pretensos proprietários da área entraram com pedido de liminar suspensiva dos efeitos da homologação junto ao STF, que deferiu o pedido por decisão de seu presidente, ministro Nelson Jobim.

Inicialmente preparados para resistir, a maior parte dos índios decidiu, em reunião no início da noite de quarta-feira, deixar suas casas e esperar a polícia na beira da estrada que liga os municípios de Antonio João e Bela Vista. É nesse entroncamento que os antigos donos de todas aquelas terras devem permanecer por tempo indeterminado.

Integrantes do grupo que, no início deste ano, causou comoção internacional por conta de um surto de mortalidade e desnutrição infantil em função do pouco espaço para morar e produzir alimentos, os indígenas despejados agora voltam a correr os mesmos riscos de morte. A decisão de permanecer acampados na beira da estrada é, segunda a liderança guarani, a única opção no momento, já que não existe outra alternativa de  reassentamento.

– Precisamos pelo menos de lonas para fazer nossos barracos, o sol está insuportável, e estamos desde as três horas de ontem se comer – disse um dos homens da tribo, que preferiu não se identificar. Eles temem pela própria vida, pois “os fazendeiros que vão tomar conta desse lugar é tudo gente muito ruim, muito malvada”, descreveu.
 
A Funai estudava, em um primeiro momento, a relocação das famílias para uma área de 26 hectares originalmente ocupada pelos guarani kaiowa, mas, de acordo com os índios, na época das chuvas esta área fica completamente alagada. Agora, a Fundação estuda a possibilidade de arrendar uma terra até que as pendências jurídicas sejam resolvidas. A Funai também deve providenciar recursos para a alimentação do grupo, além de tentar negociar a permissão para que os índios colham a produção de suas roças, mas a burocracia estatal não permitiu, até a tarde deste sábado, que qualquer ajuda chegasse aos indígenas sem-terra.