Inauguração do Museu Judaico de Berlim reflete os paradoxos da Alemanha

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Publicado segunda-feira, 10 de setembro de 2001 as 17:16, por: cdb

A terrível história da vida e da destruição dos judeus da Alemanha estava exposta no domingo à noite, quando políticos importantes e figuras da cultura foram à inauguração de um novo museu, em um prédio tão fortemente simbólico e emocionalmente desorientador que chega a ofuscar as exposições que abriga.

A inauguração do Museu Judeu de Berlim, que estava sendo construído a mais de 10 anos, contou com a presença do presidente Johannes Rau, do primeiro-ministro Gerhard Schröeder e muitos outros no que se tornou um evento imperdível, uma mistura bizarra e redentora de necessidade social e sofrimento que parecia encapsular os paradoxos da Alemanha.

Chique, moderna, reunificada e rica, a geração alemã do pós-guerra abençoada por ter nascido mais tarde foi celebrar a história de 2 mil anos de uma minoria religiosa que a Alemanha absorveu, honrou e depois incinerou, em um paroxismo do ódio que nunca será completamente compreendido ou esquecido.

O museu está em um edifício extraordinário, projetado por Daniel Libeskind, que é em si uma escultura sobre o tema do holocausto. É uma estrela de Davi desconstruída, despedaçada, cheia de janelas retalhadas e ângulos agudos que fazem com que o visitante sinta a vertigem e o horror da ausência, da perda, do deslocamento e da solidão.

A atmosfera do domingo à noite, cheia de discursos e risadas sociais, também estava espessa com a assombração do cheiro acre do holocausto.

O museu foi finalmente terminado sob a direção de W. Michael Blumenthal, de 75 anos, que nasceu em Oranienburg, onde foi construído o campo de concentração Sachsenhausen. Blumenthal, um judeu que foi para Xangai com sua família para fugir dos nazistas, se tornou um cidadão americano e foi secretário do tesouro do presidente Carter.

Voltar para a Alemanha foi difícil, contou Blumenthal em uma entrevista. “Mas neste museu eu sinto que ajudei a criar algo permanente, de valor perene, que estará aqui depois que eu encontrar meu criador. Com este museu, eu quero que os alemães, quando pensarem na palavra ‘judeu’, pensem em algo diferente de Auschwitz e do sentimento de culpa. Quero que pensem nos judeus como pessoas – e aqui estão seus rostos – que foram cidadãos leais e ajudaram a construir o país. Um sentimento de responsabilidade nacional é diferente de um sentimento de culpa”.

Se a inauguração deste museu está sendo agradável, disse Blumenthal em seu discurso de domingo à noite, “não vamos nos esquecer de que é também uma ocasião para tristeza e reflexão”. A história dos judeus da Alemanha “também faz parte da história alemã”, constatou.

“Mas a longa história da minoria judaica na Alemanha culminou em um desastre, o fim da moralidade social, a falha de uma sociedade inteira, e crueldades cometidas pela maioria sobre uma minoria indefesa de cidadãos”.

Rau não ignorou o holocausto em seu discurso. Mas “nós não devemos chegar à falsa conclusão de que o holocausto foi a soma da história judaica com a alemã”.

Ele elogiou a contribuição dos judeus para a cultura alemã e européia dizendo: “Eles desempenharam um papel desde o início. As raízes da Europa não estão somente no cristianismo”.