Inadmissível falta de respeito com o cargo

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Publicado sexta-feira, 5 de maio de 2006 as 11:43, por: cdb

A primeira página do diário carioca O Globo traz na edição desta sexta-feira uma manchete, no mínimo, maldosa. Mais do que o título: “Moralez acusa Petrobras de chantagem e Lula cede”, pior foi a foto utilizada pelos editores, que dispensa comentários até para os leitores mais desavisados. Não cabe aqui nenhuma consideração aos critérios editoriais utilizados pelo diário, para não entrar na baixaria e no desespero em que a grande imprensa se encontra, diante do entendimento mantido por nações-irmãs que tentam caminhar juntas na solução de continuidade da miséria e da exploração promovidas, ao longo de séculos, na América Latina.

Os ataques, cada vez mais freqüentes, a líderes políticos brasileiros e sul-americanos, surgem orquestrados principalmente nas Organizações Globo, na Folha de S. Paulo, no Estado de S. Paulo e na revista Veja. Não é coincidência que estes veículos de comunicação apóiem, sistematicamente, as ações promovidas pelas grandes corporações financeiras internacionais, integradas por industriais e banqueiros europeus e norte-americanos.

Mas, com a gravidade citada por Carlos Drummond de Andrade na expressão “Alto lá!”, é preciso compreender que, desde o apoio ao grande capital até a falta de respeito com as instituições nacionais, a distância é uma eternidade. Publicar notícias esdrúxulas como esta sobre a “fortuna” de Fidel Castro, estampada também nesta sexta-feira pela revista Forbes e ecoada pela imprensa brasileira como se houvesse alguma novidade nesta mentira deslavada, é até compreensível no bojo da campanha em que entram de gaiatos os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, da Argentina, Néstor Kirchner, e do Uruguai, Tabaré Vasquez. Mas envolver o presidente boliviano, Evo Morales, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nessa foto, com a mensagem de que este estaria submisso ao outro, passa qualquer limite admissível do jornalismo sério e competente.

O mínimo que os leitores, eleitores e cidadãos brasileiros deveriam fazer com esses veículos de comunicação era lhes colocar o freio do boicote. Em três tempos veriam que há limites na convivência entre a liberdade de imprensa, o respeito à honra, ao caráter e a vergonha na cara.

Gilberto de Souza é editor-chefe do Correio do Brasil.