Impasse começa a se consolidar no congresso contra o racismo

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Publicado quinta-feira, 6 de setembro de 2001 as 15:24, por: cdb

À cada dia que passa está mais próximo o impasse entre os países africanos, que decidiram manter sua exigência de desculpas e compensações pelos séculos de escravidão a que os europeus submeteram os povos do continente, e os países da União Européia, que aceitam apenas o exercício da mea culpa, sem ônus financeiro. Com isso, é quase certo que a conferência da ONU sobre racismo terminará sem um acordo sobre injustiças do passado.

“Achamos que um pedido explícito de desculpas deve ser feito pelos Estados que praticaram ou se beneficiaram da escravidão, do tráfico de escravos e do colonialismo às vítimas desses atos e suas consequências”, disse o grupo africano em um comunicado.

A maior polêmica, no entanto, está nas indenizações em dinheiro. Os africanos partem do princípio de que os países ricos de hoje conseguiram seu bem-estar em parte graças à escravidão e ao colonialismo, enquanto a África tornou-se miserável.

A Europa teme que um pedido formal de perdão desemboque em disputas judiciais envolvendo dinheiro. A maioria dos países se diz disposta a lamentar o passado. “Queremos encontrar um jeito de expressar o que sentimos sobre a escravidão sem abrir a questão para responsabilidades e indenizações”, disse um diplomata europeu.

Os europeus também rejeitam a proposta de destinar maior ajuda ao desenvolvimento àqueles países mais afetados pela escravidão. “Nosso objetivo são as áreas mais necessitadas, e não vamos ligar isso (a ajuda) a critérios históricos. Também queremos acesso aos mercados africanos, promover o investimento e trabalhar para aliviar a dívida”, afirmou o diplomata.

A África também quer que a conferência declare o tráfico de escravos, o colonialismo, o apartheid e o genocídio como crimes contra a humanidade. Mais uma vez a Europa se opõe à menção ao passado, por temer ações judiciais.

“Reconhecemos que a escravidão hoje possa constituir um crime contra a humanidade, mas se trata de um termo legal, e ele não pode ser usado retroativamente”, disse o mesmo diplomata.

Por causa da escravidão, milhões de africanos foram levados para as Américas em condições desumanas. Pelo menos 3 milhões vieram para o Brasil, onde a escravidão só terminou em 1888.

Ainda hoje, a África é o continente mais pobre do planeta, com metade da sua população vivendo com menos de um dólar diário. O país também enfrenta frequentes guerras civis e é o principal foco da Aids no mundo.