Idiotas ao quadrado

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Publicado terça-feira, 10 de junho de 2003 as 18:36, por: cdb

A versão brasileira do livro de Michael Moore, Stupid White Men traz o subtítulo “Uma Nação de Idiotas”, que dá nome ao quinto capítulo da versão original em inglês. Após a agradável e deliciosa leitura que cada um de nós pode fazer do livro de Moore, obra que já o tornara conhecido na América e na Inglaterra mesmo antes do seu desabafo durante a entrega do último Oscar em Hollywood, fiquei com uma sensação de desconforto provocada pela inquietante pergunta que poderemos fazer a nós mesmos, brasileiros, se tal subtítulo não nos cabe como uma luva. Por quê?

As revelações e atualizações de dados econômicos, políticos, culturais e sociais sobre os Estados Unidos dos finais dos anos 90 e início do novo século, mais particularmente esse da era Bush, mesmo descontada a ironia corrosiva do autor, mostram-nos um país mais doente e inquietantemente perverso do que se poderia imaginar através da avassaladora quantidade de filmes, séries de televisão, notícias de revistas, jornais e internet, livros ou ainda da maciça avalanche de comerciais que a globalização publicitária nos deita goela abaixo, ao falar das virtudes de consumir produtos e serviços com a marca e a cultura do american way of life. A advertência sobre essa metamorfose sociológica já se faz há tempos nas palavras de outros nomes como H.L.Mencken, Gore Vidal ou Noam Chomsky. Sem nos esquecermos de inúmeros americanos que, na ficção, na poesia, na música ou na dramaturgia, nada têm ou tiveram de idiotas como Ginsberg, Whitman, Joan Baez, Miller, Albee, Steinbeck, Hemingway, apenas para citarmos – correndo o imperdoável e inevitável risco da injustiça – alguns nomes dessa enorme galeria de homens e mulheres íntegros e bem pensantes daquele país.

Se os Estados Unidos da América se transformaram nessa nação de idiotas que Moore impiedosamente radiografa, porque a classe média sacoleira e emergente e as elites rurais e urbanas do Brasil ainda se comprazem e insistem em manter entre nós uma atitude de glamour e sedução para com os “nossos irmãos do norte”? Cada página de Moore, para além do humor impiedoso e por vezes cruel com que trata seus conterrâneos, nos revela um país que muitos insistem em não querer enxergar, mas que a nova doutrina Bush expõe com clareza inequívoca. Na falta de argumentos, a ameaça; na falta da diplomacia, as armas, a barbárie. Ou, nas palavras irônicas de Gore Vidal: “se os EUA puderam construir um poder bélico tão arrasador, por quê não usá-lo no lugar da diplomacia e do diálogo?”

Não se trata de demonizar os Estados Unidos da América (como a doutrina Bush quer fazer com seus eventuais inimigos), menos ainda os milhões de americanos que ainda acreditam na paz, nos valores de uma democracia real e no respeito aos direitos humanos. Mas o ninho está à vista de todos, e nele, os ovos da serpente estão chocando, aquecidos pela ameaça e pelo terror de Estado. Como propõe Moore, é preciso reagir. A cada minuto, a cada hora, em cada cidade, em cada país. Aqui, ao sul do Equador, será preciso mostrar – particularmente às novas gerações – que um país como o nosso, cuja mídia submissa, um sistema de ensino mercantilizado e uma elite aculturada ainda elegem como paradigma de desenvolvimento e competência capitalista os Estados Unidos da América, no mínimo se candidata a tornar-se uma nação de idiotas ao quadrado.

Izaías Almada é escritor e dramaturgo.