Hora de decisão

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Publicado sábado, 5 de outubro de 2002 as 23:46, por: cdb

Os números são recordes – mais de 115 milhões de eleitores e 1.880 candidatos -, mas o gigantismo das eleições deste domingo no Brasil, em que estarão em jogo a Presidência da República e mais cinco cargos, traduz-se na importância da abertura de um novo capítulo na história do país, com a consolidação de um processo democrático iniciado há 17 anos.

Desde 1989, quando os brasileiros enfim tiveram a chance de eleger seu chefe de Governo por vias democráticas após duas décadas de ditadura militar, um estigma parece ter perseguido a transmissão da faixa presidencial.

A bizarrice desta história remonta a quatro anos antes, quando Tancredo Neves foi escolhido pelo colégio eleitoral, dando início à redemocratização nacional, que sofreu, entretanto, um golpe diante de uma doença repentina que o afligiu antes da posse e acabou por matá-lo.

Foi então que seu vice, José Sarney, assumiu a Presidência, governando o Brasil até 15 de março de 1990.

Quando passou a faixa a Fernando Collor de Mello, Sarney o fez não na condição de presidente eleito, deixando a tarefa para seu sucessor.

A história do país, porém, ainda testemunharia uma de suas maiores reviravoltas. Acusado de corrupção, Collor tornou-se o primeiro presidente brasileiro a sofrer impeachment, o que permitiu que seu vice, Itamar Franco, herdasse o cargo em 1992.

Em 1994, Fernando Henrique Cardoso elegeu-se para aquele que seria seu primeiro mandato. Novamente, a transmissão da faixa veio de um vice.

A reeleição, em 1998, deixou novamente o Brasil à espera de ver o ato cerimonial acontecer pela primeira vez entre dois presidentes democraticamente eleitos.

A expectativa tem data para terminar: Fernando Henrique, pelas leis, não pôde concorrer a um terceiro mandato, o que o deixa em condições de entregar o cargo a seu sucessor em 1º de janeiro de 2003.

E quem será o sucessor de Fernando Henrique é um outro capítulo na política republicana do Brasil.

Nesta hora, a pergunta que não quer calar é: será que Lula finalmente chegará lá?

Maior símbolo da esquerda no país, torneiro mecânico, líder sindical, sobrevivente da seca no nordeste, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente de honra do Partido dos Trabalhadores (PT), é um veterano em eleições presidenciais.

Em 1989, perdeu no segundo turno para Collor por uma diferença de cerca de três milhões de votos.

Em 1994 e em 1998, viu Fernando Henrique ganhar no primeiro turno.

Em 2002, o cenário é inédito para Lula, que pela primeira vez enfrentou dentro do PT uma espécie de plebiscito para referendá-lo como candidato. O senador Eduardo Suplicy também pleiteava a indicação.

Desde o começo da campanha eleitoral, Lula esteve sempre à frente nas pesquisas de opinião. Com folgas.

Transformou-se no “Lula Light” e até no “Lulinha Paz e Amor”. Aproximou-se do centro, fez aliança com um dos maiores empresários do Brasil – José Alencar – na hora de formar a chapa à Presidência, ganhou apoio dos militares e até aceitou comprometer-se com as exigências que regeram o novo acordo do país (US$ 30 bilhões) com o Fundo Monetário Internacional.

A vitória de Lula nunca esteve tão perto. Mas aí entra uma nova pergunta: é possível vencer no primeiro turno? O ponto ou os dois ou três pontos que o separam do triunfo neste domingo serão revertidos na boca da urna? As margens de erro das pesquisas e os indecisos acabarão se virando a seu favor?

No segundo lugar, já passaram nomes como o de Roseana Sarney – que acabou por desistir da disputa pela Presidência em função de escândalos financeiros no estado sob seu governo, o Maranhão – e de Ciro Gomes, do Partido Popular Socialista (PPS), que agora amarga a quarta posição nas pesquisas de intenção de voto.

Há pouco menos de dois meses, com o início da propaganda eleitoral gratuita, o governista José Serra enfim passou a desfrutar de sua principal arma de campanha: a televisão. Virou a mesa e chegou à vice-liderança, “desconstruindo” a imagem de Ci