Herchcovitch mergulha no mundo do boxe para coleção masculina

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Publicado segunda-feira, 24 de janeiro de 2005 as 22:55, por: cdb

A coleção masculina de inverno de Alexandre Herchcovitch foi parar num ringue de boxe nos anos 1940. O cenário é uma sala enfumaçada, repleta de homens elegantes vestindo ternos, sobretudos e chapéus, fazendo apostas, com os dois adversários se enfrentando no centro do salão.

Fotos de época inspiraram o estilista a resgatar esse clima e recriá-lo para a passarela na segunda-feira, penúltimo dia da São Paulo Fashion Week.

– Eu não tinha muitos elementos para me fixar além de shorts, tênis e roupões quando olhava para esse universo. Então, comecei a me fixar no público que ia a essas lutas – disse Herchcovitch após o desfile, acrescentando que não assistiu a nenhuma disputa no ringue para compor suas criações.

Ele acabou procurando a marca Everlast, a primeira especializada nesse esporte, no início do século 20, para produzir o trabalho e com isso ganhou um contrato para desenhar uma coleção para a marca e visitar o museu da empresa nos Estados Unidos, onde encontrou as tais fotos que tanto lhe serviram de inspiração.

Nesse exercício, o brilho dos tecidos migrou dos roupões para sobretudos, blazers e calças largonas em matelassê. Malhas e moletons com estampas que remetiam ao universo das lutas eram acompanhadas por peças de alfaiataria que o estilista prepara com maestria, mas com uma modelagem diferente, com cara esportiva.

Os paletós eram bem justos ao corpo, traziam padronagem retrô, como pied de poule, e vinham acompanhados por chapéus e lenços no pescoço. Nos pés, tênis All Star, o item fashion da temporada que o estilista usa há várias coleções, ou sapatos croco envernizados de bico fino.

As calças de alfaiataria largonas tinham o cavalo baixo e a boca afunilada, muitas vezes com sapatilhas de boxe por cima da barra.

– Acho que o homem de hoje busca o conforto, não quer nada apertando nem na frente nem atrás (do corpo). Eu só uso calças assim – disse ele sobre os modelos oversized de cintura baixa.

Nesse diálogo entre a roupa esporte e a formal, bermudas com barra dobrada podiam ser acompanhadas por paletós e tênis com boné sem o menor preconceito.

As estampas eram apenas localizadas, assim como as peças mais coloridas, que serviam para pontuar as produções. Além dos motivos de boxe, como cenas de luta, reapareceram as tradicionais caveiras que são a marca registrada do estilista em peças de malharia e em um cinturão de boxe usado como cinto.

Toda a coleção valorizou o preto, o cinza e o branco, com toques de marrom-camelo (principalmente em peças de veludo) e pitadas de vermelho nos forros, além de violeta em camisas ou moletons.

Algumas peças em índigo seguiam a mesma modelagem e apareceram em macacões. Um deles, porém, era todo prateado, lembrando o uniforme de chuva dos motoboys.

– Essa é uma roupa de seda pura plastificada e impermeável, para usar por cima de outra roupa. Não pensei neles, mas se os motoboys adotarem eu vou adorar – disse Herchcovitch.