Guerrillhas: Das armas às urnas

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Publicado segunda-feira, 3 de abril de 2006 as 18:21, por: cdb

O ETA, uma das grandes insurgências nascidas dentro da União Européia, propõe abandonar as armas e converter-se num movimento legal como o fez o IRA na Irlanda. Com isto, o mundo estaria assistindo à transformação de dois grandes grupos armados. Seguirão estes passos outros movimentos armados de Ocidente, como os grupos radicais da América Latina?

Há dois anos do atentado contra passageiros nos trens de Madri, o grupo separatista basco ETA anunciou cessar fogo definitivo. Estes separatistas se propõem seguir o caminho que seus camaradas do Exército Republicano Irlandês (IRA, em inglês) iniciaram e que os conduziu ao desarmamento. O paradóxo é que um dos fatores que tem galvanizado tal evolução foi o fato de o Atlântico Norte estar sendo golpeado pelos macroatentados perpetrados por fundamentalistas islâmicos, oriundos do Oriente Médio. Estes, em vez de ter provocado a radicalização dos grupos subversivos da região, geraram o oposto. O assassinato indiscriminado contra civis provenientes de todas as classes, etnias e credos gerou uma em massa repulsa contra o terrorismo. Tanto, que vários dos setores sociais que apoiávam o IRA e o ETA lhes pediram uma mudança.

O 11 de Setembro de 2001 produziu novas reações. Por um lado, conduziu a incursões no Afeganistão e Iraque, as mesmas que substituíram tiranos hostis a Washington. Por outro lado, a rejeição popular aos macroatentados de Nova York, Washington, Madri e Londres conseguiu ir pressionando o IRA e o ETA. Isto, por sua vez, veio impactando outras guerrilhas que compartilham com eles um discurso socialista: desde os zapatistas mexicanos às Farc e o ELN colombianos.

O ETA e o IRA foram as dois grandes organizações armadas de Europa Ocidental. Ambas sustentam que representavam os direitos de suas respectivas nações (bascos e irlandeses) de deixarem de ser as últimas colônias dos que foram os maiores impérios reais atlânticos (Espanha e Reino Unido). Sua estratégia original consistia em produzir violentamente a saída das tropas espanholas ou britânicas de suas respectivas nações, a fim de ´liberá-las´ e torná-las ´repúblicas socialistas´.

Democracia representativa

Nessa luta conseguiram representar uma minoria importante da população basca ou da norte-irlandesa que os via como seus representantes. Assim se formaram partidos legais, onde os pró-insurgentes chegavam a capturar sempre mais do oitavo dos votos. No entanto, um maior avanço destes movimentos ficava freado pelo fato de que a maioria da população aceita a democracia representativa e uma solução negociada.

O 11 de Setembro teve um impacto muito importante para os irlandeses, porque uma grande parte deles vive ou tem parentes nos EUA. Muitos que financiavam ou apoiávam o IRA sofreram na própria carne o que era um ataque terrorista. Depois do 11-S, o IRA anunciou seu desarmamento. Depois do atentado do 7 de julho de 2005, em Londres, terminou aceitando o desarmar-se por completo.

O atentado do 11 de Março de 2004, em Madri, produziu uma estranha relação: produziu a queda do maior inimigo do ETA, o Partido Popular (PP). José María Aznar, cujo partido encabeçava as enquetes preelectorales, quis tratar de capitalizar eleitoralmente a repulsa ao 11-M jogando-lhe a culpa aos insurgentes bascos deste atentado.

Se o ETA tinha se catapultado nos anos 60, com ações audazes contra Francisco Franco, os sucessores do generalíssimo (o PP) potenciaram-se no poder transformando aos radicais bascos no inimigo número um. O ´fator ETA´ inicialmente levantou os pós-franquistas e depois produziu sua queda. A dureza com a que o PP reprimiu e isolou aos separatistas bascos não os destruiu, mas os obrigou a ir renunciando à luta armada.

Domesticação

Encontramo-nos num mundo no qual estamos vendo a domesticação das antigas insurgências armadas de origem socialista que nasceram durante a Guerra Fria, (de fins de 40 a fins dos 80). Depo