Graziano:’Pão e cidadania’

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Publicado sexta-feira, 27 de junho de 2003 as 10:19, por: cdb

O ministro de Segurança Alimentar e Combate à Fome, José Graziano, participou de vários eventos internacionais nesta semana. Na segunda-feira, ele apresentou o Programa Fome Zero na 124ª Sessão do Conselho do Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Na terça, o ministro se encontrou com o Diretor-Geral da FAO, Jacques Diouf, e participou de reuniões com a International Fund for Agricultural Development (IFAD) e com o Programa Mundial de Alimentos (PMA). Logo após, Graziano conversou com jornalistas da FAO. Leia, abaixo, a íntegra da entrevista:

FAO – Em que consiste o Programa Fome Zero?
Graziano – O Programa Fome Zero, é um programa desenvolvido no Brasil para acabar com a fome em nosso país que se apoia em três pilares fundamentais:
– A alimentação como um direito de todos;
– A combinação de ações urgentes – não se pode pedir às pessoas que têm fome que esperem e que reconheçam que as causas da fome são estruturais. Para isso se propõem reformas profundas: reforma agrária, apoio à agricultura familiar, eliminação de barreiras de comércio internacional que limitam o crescimento da produção;
– A idéia de que a alimentação é um direito fundamental. Temos que conscientizar as pessoas para que elas mesmas construam as bases e os canais para assegurar a segurança alimentar na sua comunidade. Só assim conseguiremos combater a fome em nosso país e em outras partes do mundo.

FAO – Podemos falar de resultados concretos em apenas cinco meses de Programa?
Graziano – Sim, já temos resultados importantes no Nordeste do país que é uma região prioritária. Escolhemos localidades que no ano passado sofreram uma forte seca e que durante oito meses ao ano não tem água potável garantida. Ali começamos a oferecer uma ajuda em dinheiro (vinte dólares mensais) às mães de família para que adquiram alimentos e, paralelamente, começamos a implantar hortas comunitárias nestas regiões mediante crédito, assistência técnica e compra da produção. Temos percebido que em zonas onde não se produzia quase nada hoje existem reservas de alimentos básicos para enfrentar a seca que começa sempre entre setembro e outubro. Além disso, estamos combinando um programa de construção de cisternas para captar água da chuva. Mas o mais importante é que, junto com tudo isso, estamos levando a cabo um programa de alfabetização destas famílias. Existem regiões onde há quase 80% de pessoas que não sabem nem ler e escrever, o que tem sido um recurso usado pelas elites da zona eleitora com fins eleitoreiros. Por isso, o Programa Fome Zero quer dar pão, mas também, cidadania aos brasileiros.

FAO – Em que medida a anunciada reforma agrária do governo Lula contribuirá para cumprir os objetivos do Programa Fome Zero?
Graziano – A reforma agrária é um outro exemplo de reforma que estamos fazendo. No Brasil existe hoje um número impreciso de pessoas acampadas a espera de programas de reforma agrária. No último mês de maio distribuímos 183 mil cestas básicas de alimentos que permitem a uma família sobreviver três meses. O governo tem o compromisso de assentar neste ano 60 mil famílias. Mas isso não significa dar somente terras, como foi feito até agora, mas também dar créditos, apoio tecnológico, assistência técnica, investimentos em infra-estrutura para se construir escolas, casas e fornecer luz elétrica. Atualmente há uma tentativa para recuperar 500 mil famílias assentadas nos anos anteriores as quais vamos dar prioridade para criar a infra-estrutura necessária e garantir a produção. Nós acreditamos que o programa de reforma agrária tem de aumentar a produção de cereais para apoiar o Programa Fome Zero. É assim que se integra o Programa com a reforma agrária: por um lado, ajudam-se as famílias necessitadas com uma cesta básica; por outro lhes é assegurada a capacidade de produzir excedentes que seriam incorporados ao Programa Fome Zero.

FAO – Quais têm sido as maiores dificuldades na ho