Governo paulista aponta existência de grupos de extermínio

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Publicado sexta-feira, 7 de março de 2003 as 23:57, por: cdb

O secretário de Segurança Pública, Saulo Abreu, admitiu nesta sexta-feira em São Paulo a possibilidade de policiais estarem envolvidos num grupo de extermínio que há cerca de três anos agiria em Ribeirão Preto, no interior do Estado de São Paulo. Mas ressaltou que as investigações têm de ser cautelosas, para que integrantes da corporação não sejam acusados injustamente.

“Não estamos descartando nenhuma hipótese. Mas, se estão agindo errado, trata-se de uma minoria. E a polícia local tem todo o interesse em inocular esse vírus”, afirmou. “É muito fácil apontar culpados, mas eu não jogo para a platéia e sim para o processo. É necessário haver provas.”

Saulo disse que foi informado sobre as suspeitas no ano passado e, há um mês, depois de conversa com representantes do Ministério Público Estadual (MPE), determinou a criação de uma força-tarefa para investigar os casos, composta pelas Corregedorias das Polícias Militar e Civil, com o apoio do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), de São Paulo, e de integrantes da cúpula da polícia de Ribeirão Preto.

O grupo, segundo ele, estaria agindo em conjunto com o MPE. “Não existe essa história de polícia para um lado e Ministério Público para outro”, assegurou. O MPE tem uma lista de 17 nomes de policiais suspeitos de terem praticado execuções nos últimos anos. Também se apura a existência de um cemitério clandestino na região.

Segundo o procurador-geral de Justiça, Luís Antônio Guimarães Marrey, as investigações policiais seguem em ritmo mais lento do que o esperado. “Não observei empenho dos policiais de Ribeirão Preto, caso contrário não haveria tantos crimes.”

Marrey também mostrou insatisfação quanto à mudança na direção da Corregedoria da Polícia, que passou a ser comandada pelo delegado Rui Stanislau. “Não posso fazer apreciação sobre a troca de um cargo de confiança, mas estava muito satisfeito com o delegado Maurício Genofre. No mês passado, ele narrou vários progressos nas investigações.”

O secretário alegou que a mudança não teve nenhuma relação com as denúncias. “Já estava programada anteriormente”, disse. “Querem fazer uma exploração panfletária do caso, mas a realidade é que não há fatos concretos e eu não faço especulações.”

Segundo o corregedor-auxiliar da Polícia Civil em Ribeirão Preto, Jayme da Silva Ribeiro Filho, estão sendo investigados 17 casos específicos de crimes que estariam relacionados ao suposto grupo de extermínio. Ele se surpreende ao ouvir que o número de executados chegaria a cem e que existiria até um cemitério clandestino. Também informou desconhecer a lista dos policiais suspeitos.

As investigações sobre o possível grupo de extermínio começaram em agosto de 2002, após mortes seguidas com características de execução: tiros na cabeça, até em grupos. As vítimas tinham, na maioria das vezes, passagens pela polícia e as armas dos crimes eram semelhantes às usadas por policiais.

Numa mesma noite, três irmãos e o namorado de uma das vítimas foram assassinados – o casal em casa e dois deles, no carro, diante da mãe, minutos após prestarem depoimento na polícia. A mãe, que está sob proteção policial, mencionou a existência de um Primeiro Comando de Extermínio (PCE).

Ribeiro Filho e o diretor do Departamento de Polícia Judiciária do Interior (Deinter-3), Luiz Roberto Ramada Spadafora, disseram que jamais ouviram falar de nada a respeito.

Para Spadafora, o caso “mais estranho” foi a morte de João Paulo Alves da Silva, de 21 anos, ocorrida na cela do anexo do 1º DP, em abril. Silva estava preso havia pouco mais de 24 horas, por suspeita de ter participado do atentado à casa do delegado Paulo Pereira de Paula, dias antes. Na parede da cela, o aviso 15.3.3 (de PPC, Primeiro Comando da Capital) não convenceu a Deinter sobre a autoria do crime.