Governo ficou atordoado com votação do Imposto de Renda

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Publicado quinta-feira, 13 de dezembro de 2001 as 20:20, por: cdb

A aprovação do projeto de lei que corrige a tabela progressiva do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) em 17,5% deixou o governo atordoado. Hoje, o secretário-geral da Presidência, Arthur Virgílio, disse que o presidente Fernando Henrique Cardoso poderá vetar o texto, editando em seu lugar uma Medida Provisória contendo algum alívio na carga tributária para os contribuintes. “A MP ainda não está desenhada”, afirmou.

A decisão de vetar, explicou Virgílio, dependerá de uma análise sobre o impacto da correção sobre as contas públicas em 2002. “A gente compreende que uma bondade de curto prazo às vezes é uma grande maldade de longo prazo”, disse.

O líder do governo no Senado, Arthur da Távola (PSDB-RJ), confessou a colegas parlamentares que o Executivo não sabia bem o que fazer para contornar a situação. Na verdade, o governo não contava com uma derrota tão fragorosa, por unanimidade, e alimentava a ilusão de vencer a questão no voto. Em conversa com parlamentares, Arthur Virgílio queixou-se de traição. “Eles estão se sentindo um pouco como o Fernando Collor, que contava barrar o processo de impeachment com 20 votos de diferença, mas os votos viraram na hora”, comentou um parlamentar.

Era evidente o mal-estar na Esplanada dos Ministérios. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, não escondeu sua irritação quando foi solicitado a comentar a correção da tabela. “Estamos aqui para tratar de outros assuntos”, disse. Ele e o secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, estiveram nesta quinta-feira no Palácio do Planalto para anunciar um novo sistema de cobrança de contribuições federais sobre o setor automobilístico. Também Everardo recusou-se a comentar o assunto.

“Todo o processo foi muito mal conduzido”, criticou um assessor da área econômica. “Houve problemas de coordenação, erros de estratégia e traição.” Os assessores da área política, por sua vez, criticam a área econômica de demorar a formular uma proposta que tivesse chances de ser negociada com sucesso no Congresso. O presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG), disse hoje que o Congresso continuará mantendo conversações com o governo sobre o assunto, mas deu a entender que são poucas as chances de evitar a correção. “O governo negociou as alternativas que achou melhores, mas o Congresso não aceitou”, lembrou. Questionado sobre a possibilidade de veto, ele afirmou: “o veto para mim não é importante; estou fazendo a minha parte.”

Para o presidente do Senado, Ramez Tebet (PMDB-MT) é pouco provável que Fernando Henrique vete a correção. “O governo terá sensibilidade de evitar um veto”, disse. Da mesma forma, ele não acredita no envio de uma MP para substituir a correção de 17,5%. “É minha convicção, não acredito que o governo enviará uma MP”, disse.