G-20 fala apenas o idioma da crise financeira

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado terça-feira, 28 de fevereiro de 2012 as 19:50, por: cdb

O Grupo dos 20 países industrializados e emergentes (G-20) deixou o México sem definir mecanismos para enfrentar a ameaça de outra recessão mundial ou a crise da dívida europeia, e também continua sem abordar temas urgentes como a mudança climática ou a emergência alimentar. Por Emilio Godoy, da IPS.Artigo |29 Fevereiro, 2012 – 02:46Nem a crise financeira nem a climática farão mudar de rumo os líderes dos 20 países industrializados e emergentes na reunião do próximo mês de junho.

Numa declaração de 12 parágrafos, os ministros das Finanças e presidentes dos bancos centrais, reunidos sábado e domingo na Cidade do México, não se referem à crise alimentar da África e dedicaram apenas duas menções à energia e ao clima. Isso apesar dos chamados de organizações da sociedade civil para que a agenda fosse ampliada para as crises climática e alimentar e a outros temas que impactam a população mundial.

“Vimos uma falta de disposição para tomar decisões de fundo. É uma espécie de derrota e indisposição para mudar as coisas no âmbito internacional. Ficou claro que não querem realizar grandes mudanças. O problema é que esses países são determinantes em todos os organismos”, disse à IPS Alfonso Ramírez, presidente da el Barzón.

Esta instituição pertence a uma rede de organizações não-governamentais centrada nos temas do G-20 e surgiu devido à crise financeira que atingiu o México em 1994, pulverizou a poupança de milhões de pessoas, acabou com milhares de postos de trabalho e gerou tremores na economia global.

Ministros e funcionários reunidos na capital mexicana acordaram elaborar um relatório sobre o impacto da volatilidade dos preços das matérias-primas no crescimento económico. Este estudo “deve avaliar opções de política que os países possam considerar que reduziriam a excessiva volatilidade das matérias-primas ou mitigariam seus efeitos sobre o crescimento e o bem-estar dos segmentos vulneráveis. Isso para aproveitar as oportunidades de crescimento económico que esses mercados apresentam”, diz o documento final do encontro.

Um total de 56 ONGs de 14 nações apresentou ao encontro financeiro uma série de assuntos para serem incluídos no seu debate, como segurança alimentar, transparência e combate à corrupção, inclusão financeira e luta contra a fome. Na verdade, as ONGs consideram que esses assuntos devem estar presentes na agenda dos chefes de Estado e de governo do G-20 que se reunirão em junho na cidade mexicana de Los Cabos.

O G-20 reúne os países industrializados do Grupo dos Oito (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Japão, Itália e Rússia) e as potências emergentes: Brasil, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, China, Coreia do Sul, Índia, Indonésia, México, África do Sul e Turquia. Também participa a União Europeia (UE).

Os ministros acordaram melhorar o diálogo entre produtores e consumidores de energia, mediante maior transparência dos mercados de gás e carvão; funcionamento e supervisão das agências envolvidas com o preço do petróleo, e a limitação e o fim, no médio prazo, de subsídios ineficientes para combustíveis fósseis.

“É preciso reduzir os subsídios para os combustíveis fósseis no médio prazo, é necessário diante da mudança climática”, disse ao final da reunião a ministra dinamarquesa das Finanças, Margreth Vestager. “Há um amplo consenso sobre a economia verde e a transição (para menor dependência de combustíveis fósseis). Temos que encontrar formas de fortalecer o crescimento, a pesquisa e o investimento”, acrescentou a representante da Dinamarca, país que neste semestre preside a UE.

Mas, precisamente, a luta dos Estados Unidos e de outros países ocidentais com o Irão por causa do seu programa nuclear encarece o petróleo, o que, por sua vez, representa uma ameaça para a combalida economia mundial, às portas de uma nova recessão, destacaram especialistas financeiros ao comentarem a reunião do G-20.

Além disso, os delegados solicitarão a organismos com o Banco Mundial e as Nações Unidas a elaboração de um relatório que apresente ao grupo diferentes opções para inserção de políticas de crescimento verde e desenvolvimento sustentável em suas “agendas de reformas estruturais”.

O encontro na Cidade do México evidenciou as diferenças dentro do G-20 diante dos pacotes financeiros destinados a encarar a crise mundial. Enquanto a UE quer que o Fundo Monetário Internacional (FMI) dê mais dinheiro para esse fim, nações emergentes, como México e Brasil, propõem contraprestações para que isso seja feito.

Mas durante os dois dias de reunião não ficou claro o que a União Europeia pode oferecer em troca de maior contribuição do FMI, dirigido pela francesa Christine Lagarde, além de acelerar as lentas reformas desse organismo e do Banco Mundial. “Continuaremos com o processo de revisão da fórmula que determina as cotas do Fundo, para que estas reflitam adequadamente o peso relativo das economias dentro do sistema global”, afirmou o ministro mexicano das Finanças, José Meade, ao término do encontro.

As nações emergentes querem que o bloco europeu crie mais barreiras financeiras, ou “corta-fogo”, para que a crise não se propague, como ocorreu em 2008, quando teve início nos Estados Unidos uma crise que acabou se espalhando mundialmente. O novo pacote anticrise estará na mesa de debate da reunião conjunta da primavera boreal do FMI e do Banco Mundial, que habitualmente acontece em abril, em Washington.

Então, os representantes do G-20 terão de enfrentar a definição das quantias das contribuições destinadas a conjurar uma crise que agora se irradia a partir da UE. Até agora, a eurozona ofereceu um aporte ao FMI de US$ 200 mil milhões, mas o órgão responde que precisa de pelo menos US$ 500 mil milhões para encarar os efeitos da crise.

“Há um entendimento amplo de que os corta-fogo têm que ser fortalecidos para conseguir estabilidade financeira. Cremos que os recursos do FMI devem ser assegurados rapidamente. Acordamos com o FMI que os desafios não se limitam à Europa, por isso cremos que deve haver corta-fogo efetivo”, disse Vestager.

Para Ramírez, de El Barzón, os resultados do encontro da capital mexicana podem ser uma antecipação do que ocorrerá em junho na cúpula de chefes de Estado e de governo. “A reunião irá por um caminho diferente das resoluções que tomamos (dentro da sociedade civil). Está totalmente ausente de nossos propostas e tememos que esteja fora dos resultados da cimeira do G-20”, destacou o ativista.

Em Los Cabos, segundo a agenda prevista, os governantes do G-20 abordarão políticas contra a crise financeira, segurança alimentar, crescimento verde e luta contra a mudança climática, além de outros assuntos.