Frei Henri: um Las Casas de nossos dias

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Publicado domingo, 17 de dezembro de 2017 as 18:14, por: cdb

A vida de Frei Henri “foi sempre uma vida política. E esse foi o convite que ele dirigiu a todos e todas”.

 

Por frei Marcos Sassatelli – de Goiânia

 

A Nota “Morre Frei Henri, um Las Casas de nossos dias” da Coordenação da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil, do dia 26 de novembro, começa dizendo: “Recebemos hoje, com pesar, a notícia da morte de Frei Henri des Roziers, frade dominicano que trabalhou quase 40 anos no combate ao trabalho escravo, na luta pela reforma agrária e pelos direitos humanos no Brasil”.

Frei Henri foi um gigante na defesa dos sem-terra; e do povo oprimido no Norte do Brasil
Frei Henri foi um gigante na defesa dos sem-terra; e do povo oprimido no Norte do Brasil

Frei Henri morreu (completou sua Páscoa) aos 87 anos em Paris, no Convento do frades dominicanos “onde passou os últimos 4 anos de sua vida, com saúde frágil, uma atenção plena e uma alegria invejável”.

Dominicano

A Nota continua afirmando que Frei Henri foi “fonte de inspiração de uma grande quantidade de pessoas”, “reuniu ao seu lado uma centena de gente que conspira e se inspira conjuntamente, que se encontra em torno da vida desse homem que fez dos seus atos individuais, os gestos coletivos de luta e de resistência”.

E ainda: “Sua vida foi sempre uma vida política. E esse foi o convite que ele dirigiu a todos e todas. E para isso, mostrava o caminho que ele mesmo seguira: as grandes utopias da liberdade, a radical experiência da fé encarnada vivida por pessoas como Antônio Montesino e, principalmente, Bartolomeu de Las Casas, cuja inspiração Henri encarnou vivamente ao longo da vida: ‘eu tentei viver como ele’, confessara nas páginas finais do livro biográfico Comme une rage de Justice, publicado na França, em 2016, pela Editora Le Cerf (previsto para ser lançado, em breve, no Brasil)”.

A Nota lembra também que “Henri é membro da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil. Mais do que isso: foi um dos seus idealizadores. Entre nós, ele insistia na importância da estratégia e da articulação. Foi, por isso, um construtor de pontes, cujo cimento era a esperança na luta pela Justiça. Nessa tarefa, uniu mundos aparentemente incomunicáveis.

Vocação

Ele fez o estudante francês da Sorbonne de maio de 68 se encontrar com o sem-terra do sul do Pará; ele fez com que os jovens Katangais compartilhassem seus destinos com os jovens vítimas do trabalho escravo da Amazônia; que advogados do Haute-Savoie servissem de exemplo para os advogados do norte do Brasil; que os frades franceses se vissem em Tito de Alencar e nos jovens frades brasileiros que lutavam contra a ditadura; que o humanismo cristão se encontrasse com a teologia da libertação; que Congar, Chenu e o Cardeal Arns sentassem à mesma mesa; que o Centro Saint-Yves e a CPT se reconhecessem reciprocamente; que a autoridade jurídica do advogado se unisse à autoridade moral do religioso; que o direito se encontrasse, afinal, com os pobres”.

Henri “viveu assim sua vocação ao extremo e deu sentido à sua vida como poucos conseguiram. À sua cepa pertence gente como Tito de Alencar, Tomás Balduíno, Lília Azevedo e Irmã Revy, entre outros irmãos e irmãs que se inspiraram mutuamente”.

A Nota destaca: “Foi com palavras embrulhadas por um sotaque francês e com roupas rotas, que Henri frequentou tribunais para defender as gentes sem defesa contra a impunidade. Advogado das causas da terra, ele conhecia de perto as vítimas e suas dores. Fez disso a sua estratégia de luta e nunca esmoreceu diante das muitas ameaças que sofrera. Ao contrário, toda vez que seu nome aparecia nas listas dos marcados para morrer, a luz dos seus olhos pequenos brilhava com mais força. E era essa fonte de luz que animava quem estava ao seu lado”.

Libertação

Em tom poético, declara: “Henri morreu no quarto do Convento Saint Jacques, onde está a famosa biblioteca dos Chorões (visitada por Foucault e tantos outros) em Paris, diante da janela, por onde se esparramava uma árvore frondosa, cujas folhas douradas ele não cansava de contemplar e que vinham suavemente morrer contra a vidraça do quarto. Aquela árvore outonal prenunciara o destino do homem que, no outono da vida, murchava como as folhas. Mas como elas, também declinara com beleza, tornando-se fertilizante de outras vidas. Como aquela árvore, a vida de Henri se prolongou nos seus adubos”.

E agora, “a quem fica, restam outras estações, vitalidades e declínios. Para homenagear Frei Henri, continuaremos contemplando as árvores, atentos às estações, cuidando do tempo que é nosso”.

Com um profundo sentimento de dor compartilhada; a Nota conclui: “Embora uma parte de nós morreu com Henri hoje, uma outra com ele se rejuvenesce. Em silêncio, olhos marejados, colheremos os frutos e as boas sementes do mundo que há de vir. Henri estará conosco. Aquela árvore foi sua última lição”.

No Brasil inteiro, por ocasião da Páscoa definitiva do Frei Henri – que fez de sua vida uma doação de amor à causa dos “pequenos”, tornando-se um dos maiores defensores dos direitos dos trabalhadores rurais – centenas de pessoas, que tiveram a felicidade de conhecer e conviver com ele, deram – oralmente ou por escrito – seus testemunhos emocionantes, que renovam a nossa esperança e o nosso compromisso com a causa da justiça e dos direitos humanos.

Menino Jesus

O Cardeal Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília e presidente da CNBB – em sua Nota “Palavra sobre Frei Henri” – lembra que ele “foi um notável defensor dos mais pobres na região de conflito de terras no interior do Brasil” e que, “na linha do trabalho sempre corajoso da Pastoral da Terra, colocando sua formação em Direito a serviço dos mais fracos, esteve por muitos anos compartilhando da vida das comunidades do sul do Estado do Pará, lutando incansavelmente pela busca da justiça”.

Por fim, Dom Sérgio testemunha: “Guardamos o seu exemplo como semente de perseverança para todos na firme missão de permanecermos ao lado dos pobres, sempre na paz, sem nos deixarmos intimidar por nenhum tipo de força que queira fazer frente à justiça e ao Evangelho de Jesus Cristo”.

Pessoalmente, todas as vezes que tinha a oportunidade de me encontrar com Frei Henri e de conversar com ele, fazia a experiência de uma comunhão de ideais tão profunda que me fortalecia e renovava a minha esperança em outro mundo possível. Um dia, fiquei muito emocionado percebendo que os olhos de Frei Henri brilhavam de luz depois de ter visto e contemplado a imagem de Nossa Senhora da Terra, vestida de trabalhadora pobre e dando a mão ao Menino Jesus, vestido de criança pobre.

Frei Henri vive entre nós! Sua luta continua! Frei Henri, ore por nós!

Frei Marcos Sassatelli é frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção – SP).
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