Fórum Pan-Amazônico estrutura agenda de lutas em Belém

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sábado, 18 de janeiro de 2003 as 13:50, por: cdb

O II Fórum Social Pan-Amazônico (FSPA) é um evento diferente de todos os outros já realizados na região. Essa, ao menos, parece ser a convicção das cerca de cinco mil pessoas presentes ao II FSPA, que acontece em Belém. A esperança de que as coisas podem mudar na Amazônia, e na América Latina em geral, pareceu eletrizar o céu da capital paraense durante todo o primeiro dia do evento (16). Desde o fim da madrugada, com a chegada das caravanas fluviais, até o fim da tarde, quando aconteceu a passeata contra a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), era perceptível uma mudança de perspectiva política nas palavras de ambientalistas, indígenas, trabalhadores do campo e da cidade e demais presentes ao evento.
Na explicação da maioria dos militantes e delegados do II FSPA, essa mudança de perspectiva tem origem em uma dupla vitória. No plano interno ao fórum, foi alcançado pela primeira vez um patamar de representatividade internacional que permite vislumbrar a elaboração de uma agenda comum de lutas em defesa da Amazônia para os nove países amazônicos. Essa agenda, se elaborada, tem tudo para colher inúmeros apoios junto às ONGs e demais organizações da sociedade civil européia e norte-americana, que também se fazem representar em bom número em Belém. No plano externo, a vitória passa pela presença de políticos considerados aliados da luta em defesa da Amazônia na Presidência da República de três importantes países da região. São eles, segundo os militantes, Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Lúcio Gutierrez (Equador) e Hugo Chávez (Venezuela).

Para Adilson Vieira, membro da coordenação do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) e um dos coordenadores do fórum, o momento é propício a um salto de qualidade na relação política entre as organizações que atuam na Região Amazônica: “As experiências que temos acumulado ao longo dos últimos anos mostraram para as sociedades nos países amazônicos que a Amazônia e suas populações podem se desenvolver de maneira sustentável. A prioridade agora é buscar junto aos governos progressistas da região a efetivação de políticas públicas que tenham as populações amazônicas como protagonistas, e não meros objetos”, disse.

O índio Gerônimo Ticuna, que veio da Colômbia e enfrentou seis dias de viagem de barco até chegar a Belém, também acha que a hora é de união: “As populações indígenas devem alertar os governantes sobre o perigo que representa a Alca. Se o acordo for estabelecido, vai significar mais morte e desolação para os índios. A responsabilidade dessa luta está nas costas dos líderes comunitários e não podemos fugir dela”, afirma.

Participação indígena e de base são trunfos do fórum
A boa presença (em quantidade e qualidade) de representantes indígenas – são mais de 50 nações representadas no II FSPA – é outro trunfo do fórum que começa. Apesar das dificuldades de financiamento e transporte, que provocaram algumas sentidas ausências, os índios da América do Sul têm uma chance ímpar de se articular politicamente. Estão em Belém, pessoas das etnias Huitoto, Yacubo e Tikuna (Colômbia), Taurepang (Venezuela), Ashaninka (Peru) e Kalina (Guiana Francesa), além das etnias brasileiras Caiapó, Curuays, Tiriós, Mundurukus, Xipariais, Macuxis e Tembés.

Reunido com outras cem lideranças indígenas na Escola-Bosque, centro de Educação Ambiental da Prefeitura de Belém, Muxi Tembé enumera os motivos que levaram seu povo a ser a etnia representada em maior número no II FSPA: “Muito têm sido discutido, mas continuam a extrair ilegalmente e roubar nossa madeira, nossas crianças continuam passando fome e começam agora a nos privar do acesso à água. Os índios querem ver quem é que vai acabar de verdade com essas coisas erradas”, cobra.

A cobrança de Muxi não deve ser a única em um fórum que conta com inédita participação de pessoas da base das comunidades indígenas. Isso se reflete também na representação de outros protagonistas do II FSPA, como seringueiros, castanheiros, agricultores, quebrade