Filmes levam problemas da África ao Festival de Berlim

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Publicado terça-feira, 15 de fevereiro de 2005 as 19:11, por: cdb

Histórias de horror vindas da África, sobre genocídio e soldados assassinos mirins, estão chocando o público do Festival de Cinema de Berlim este ano, com atores e diretores se esforçando para colocar o “continente esquecido” no mapa do cinema mundial.

Mas do meio da escuridão emerge a exuberância, e o cinema africano começa a gerar novos talentos que, cada vez mais, se mostram dispostos a trabalhar nas línguas nativas, que representam um risco econômico.

Dois filmes exibidos em Berlim este ano tratam do genocídio de Ruanda, em 1994, quando extremistas hutus massacraram estimadas 800 mil pessoas em 100 dias, enquanto uma força internacional de manutenção da paz, cada vez menor, assistia sem nada fazer.

Um documentário acompanha a trajetória de quatro crianças, uma delas de apenas 8 anos de idade, sequestradas no norte da Uganda pelos rebeldes do Exército de Resistência do Senhor e forçadas a matar pessoas de sua própria etnia.

Num registro mais leve, também há um filme que parte da música da ópera “Carmen”, de George Bizet, para ambientar a história numa cidade pobre da África do Sul, sendo o libreto da ópera traduzido para o idioma xhosa.

“U-Carmen eKhayelitsha” é o primeiro filme sul-africano a competir pelo prêmio máximo de Berlim e o primeiro longa já produzido em xhosa, segundo Dimitri Martinis, da Fundação Nacional de Cinema e Vídeo (NFVF) da África do Sul.

Há pouco tempo outro filme sul-africano surpreendeu ao receber uma indicação ao Oscar: “Yesterday”, divulgado como sendo o primeiro longa-metragem falado na língua zulu.

Em Berlim, Martinis disse à Reuters que a NFVF financiou 22 longas em 2003/04, contra apenas dois filmes três anos antes.

O diretor de “Yesterday”, drama sobre uma moradora de um povoado rural que descobre ser soropositiva, disse no mês passado que a indicação ao Oscar pode abrir caminho para que filmes sul-africanos concorram aos prêmios maiores dentro de cinco anos.

DIRETORES ESTRANGEIROS TAMBÉM FOCALIZAM ÁFRICA

Diretores ocidentais também retrataram os conflitos da África, alguns usando filmes contundentes de maneira abertamente política para conscientizar o público sobre atrocidades que o mundo externo frequentemente deixa cair no esquecimento.

“Espero despertar interesse político, além de artístico”, disse o irlandês Terry George, diretor de “Hotel Rwanda”, baseado na história verídica de um gerente de hotel que usou sua inteligência e seu dinheiro próprio para salvar mais de 1.200 ruandeses da morte quase certa.

Paul Rusesabagina, o homem em quem o filme se baseia, disse à Reuters em entrevista recente que “Hotel Rwanda” é um chamado de alerta e criticou a comunidade internacional por ter retirado suas tropas de Ruanda, onde poderia ter salvo inúmeras vidas.

Terry George afirmou que, na prática, o mundo está dizendo que a vida humana na África vale menos do que no resto do mundo.

Filmado na África do Sul e indicado para três Oscar, “Hotel Rwanda” vai fazer sua estréia em Kigali em março, mas outro filme sobre o massacre já foi visto por milhares de pessoas na capital ruandesa.

A co-produção americano-ruandesa “Sometimes in April” foi filmada em locações em Rwanda e conta a história de um oficial do Exército hutu que, em 1994, é separado de sua mulher, que é tutsi. O filme será exibido em Berlim na quinta-feira.

A África também vem atraindo a atenção de documentaristas.

“Lost Children” mostra quatro crianças sequestradas pelo Exército de Resistência do Senhor no norte de Uganda e forçadas a massacrar seu próprio povo.

Opio, de 8 anos, é jovem demais para manifestar remorso pelos atos de crueldade que cometeu.

Kilami, de 13, é assombrado pela lembrança de um garotinho que observou enquanto ele matava sua mãe a facadas. Apesar de orar por perdão, ele não pára de ter pesadelos e hoje é isolado por sua família, que passou a sentir medo dele.