Filme “Machuca” traz os conflitos da ditadura chilena

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Publicado quinta-feira, 13 de janeiro de 2005 as 15:23, por: cdb

O cineasta chileno Andrés Wood não tinha mais que 7 anos quando acompanhou, pela televisão, o golpe militar liderado por Augusto Pinochet que derrubou o socialista Salvador Allende. Ele ainda guarda na memória alguns flashes daquele penoso 11 de setembro de 1973, que são reproduzidos em uma cena de seu novo filme, “Machuca”, que estréia nesta sexta-feira (14) em São Paulo e no Rio de Janeiro, com 12 cópias.

– Eu não tinha nenhuma consciência política, mas senti duramente os efeitos do golpe, como a escassez de alimentos que logo tomou conta do país – contou Wood ao GRUPO ESTADO, durante sua rápida passagem pela capital paulista, na segunda-feira (10).

O Andrés Wood adulto pouco lembra o roliço e sardento menino Gonzalo Infante, um dos personagens principais do filme, que é seu alter ego. Na história, ele é um garoto de família rica cuja rotina é alterada quando o colégio em que estuda, comandado por um padre inglês, recebe garotos pobres, moradores de uma favela próxima. Entre eles, Pedro Machuca com quem Gonzalo vai desenvolver uma afinidade, apesar do enorme abismo social que os separa.

– A semelhança está na vivência, pois, na mesma época, eu estudava em um colégio de Santiago onde foram colocados meninos da periferia, o que me fez perder vários medos sociais – conta o diretor, que reproduz no filme momentos tocantes, como a amizade entre os garotos, a descoberta da sexualidade e a infeliz certeza de que a posição econômica define o grau de liberdade de cada um.

Wood lembra ter entrevistado antigos moradores da favela onde se passa a história, além de um padre que visivelmente inspira o inglês McEnroe, o cura que acaba deposto pelos militares. Uma das cenas, aliás, em que McEnroe come todas as hóstias do altar, pois não considera mais santo aquele espaço, foi detalhadamente narrada por esse padre.

A decisão de contar a história de uma amizade não seguiu apenas os desejos de rememorar o passado – Wood aproveitou o fio condutor para tocar em um tema ainda controverso no Chile, a deposição de Allende e a ditadura Pinochet.

– Mesmo depois da redemocratização do país, a política não era um assunto abordado pelo cinema, pois se acreditava que não levaria ninguém às salas de exibição. Outro motivo, muito importante, é a divisão entre aqueles que são a favor e os que são contra Pinochet, aqueles que sabem que houve tortura e os que a negam – explica.

Assim, com os fatos históricos ocupando o fundo do enredo, “Machuca” tornou-se um enorme sucesso no Chile (700 mil espectadores em 25 semanas), estendendo-se para diversos países europeus e latino-americanos. Wood desconversa, mas não consegue esconder sua enorme expectativa em relação aos indicados para o Oscar, cuja lista de finalistas será divulgada no dia 25.

– Imaginar o filme entre os relacionados de melhor língua estrangeira seria uma quimera, mas mantemos as expectativas.

Seria não apenas a comprovação de que o cinema chileno, no rastro do brasileiro e argentino, vive também sua fase de retomada, mas confirmaria ainda a vitalidade da nueva onda, termo com que a crítica internacional identifica o surgimento de uma nova leva de realizadores latino-americanos.

“Machuca” reúne, de fato, todas as principais características. Os garotos, que não eram atores, foram cuidadosamente ensaiados durante sete meses para que, durante os outros dois meses em que duraram as filmagens, respondessem em cena com naturalidade. Também a computação gráfica permitiu que fosse reproduzida com exatidão a Santiago de 1973, eliminando fios e postes que existem hoje.

Serviço:

“Machuca” (Machuca, Chile-Esp/2004, 120 min.). Drama. Dir. Andrés Wood. 12 anos. Cineclube Vitrine1 – 15h, 17h10, 19h20, 21h40. Espaço Unibanco1 – 14h10, 16h40, 19h10, 21h40 (sáb. também 11h, 0h). Lumière 1 – 14h, 16h30, 19h, 21h30. Market Place Cinemark 7 – 11h20, 14h, 17h05, 19h55, 22h30. Sala UOL – 14h10, 16h4