FHC e a loucura que arrasou o sistema energético brasileiro

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Publicado quarta-feira, 29 de agosto de 2001 as 15:38, por: cdb

FOI LOUCURA, MAS HOUVE MÉTODO NELA:
GÊNESE, DINÂMICA E SENTIDO NA CRISE ENERGÉTICA BRASILEIRA

Em eletricidade, o Brasil ocupa no mundo uma posição semelhante à da Arábia Saudita em petróleo. Graças a isso, mais de 90% de nossa capacidade de geração se baseia em duas coisas gratuitas, a água das chuvas e a força da gravidade. Bacias hidrográficas generosas, com centenas de rios permanentes e caudalosos, se espalham por grandes regiões – Sul, Sudeste, Nordeste, Centro-Oeste e Norte – cujos regimes de chuvas são bem diferentes. Por serem rios de planalto, seguem trajetórias em que, de modo geral, a declividade é suave. Quando barrados, formam grandes lagos. São energia potencial estocada. É só fazer a água cair, passando por uma turbina, que geramos a eletricidade mais barata do mundo, de fonte renovável e não poluente. Se as barragens forem construídas em seqüência, ao longo do curso de um rio, a mesma gota d’água é usada inúmeras vezes, antes de se perder no oceano.

Como a quantidade de chuvas varia em cada ano, os reservatórios funcionam como uma espécie de poupança. A decisão de formá-la data de cinqüenta anos atrás. Foi impulsionada pela maior seca de nossa história, que durou de 1951 a 1956. Nunca, até hoje, se viu coisa igual. Cinco anos sucessivos com pouquíssima chuva em quase todo o país provocaram grandes transtornos e um pesado racionamento de energia. Tínhamos então 3.500 megawatts-hora (mWh) de potência instalada, sob controle do capital privado, principalmente estrangeiro, que investia pouco e travava uma permanente queda de braços com o Estado para obter aumentos de tarifas.

O Brasil da década de 1950 queria crescer. Precisava de energia. Em 1957, o Estado construiu a barragem de Furnas, para garantir o necessário aumento de oferta. Como a memória da grande seca era fresca, o moderno sistema elétrico brasileiro, que nasceu ali, foi dimensionado para suportar outra ocorrência como aquela, acumulando combustível – ou seja, água – suficiente para cinco anos de operação, mesmo sem chuvas. A expansão do sistema passou a ser planejada de modo que a demanda prevista para os cinco anos seguintes permanecesse sempre igual à “energia firme”, ou seja, a energia que pode ser gerada em regime de seca. A taxa de risco tolerável foi fixada bem baixa, em 5%.

Com o esforço e o talento de várias gerações, tudo se aperfeiçoou. Como as chuvas também variam de região para região, o sistema foi interligado por linhas de transmissão, de modo a permitir que um operador central racionalize o uso da água disponível em todo o país. Graças a isso, os reservatórios situados em diferentes bacias hidrográficas, que não têm nenhuma ligação física entre si, funcionam como se fossem vasos comunicantes. Se chove pouco na bacia do rio São Francisco e muito na bacia do rio Paraná, a usina de Paulo Affonso é orientada a colocar pouca energia na rede, economizando sua água que se tornou preciosa, e a usina de Itaipu faz a compensação. Ao colocar mais potência na rede, Itaipu cede água, indiretamente, para Paulo Affonso. Nos lares, escritórios e fábricas, ninguém percebe o inteligente rearranjo que permite otimizar o fornecimento da energia em cada momento.

Quanto à garantia de desempenho no tempo, um sofisticado modelo estatístico, aqui concebido e alimentado com os dados da hidrologia brasileira, permite gerar uma série que simula o comportamento do nosso sistema hídrico em um período – evidentemente, virtual – de dois mil anos. Espetacular ferramenta de planejamento: toda vez que as simulações mostravam um risco de ocorrência de déficit futuro maior do que 5%, estava na hora de construir uma nova hidrelétrica. E se, por falta de chuvas, o déficit nos fazia aproximar de 5% de risco no presente, estava na hora de ligar usinas térmicas, que formam o “banco de reservas” do sistema.

Dessa combinação de características, resultava uma altíssima confiabilidade. O Brasil, finalmente, tinha