FHC diz ser ‘extremamente perigoso’ fazer promessas que não se possa cumprir

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Publicado quinta-feira, 31 de outubro de 2002 as 22:54, por: cdb

Presidente da República com mandato durante os próximos 60 dias, Fernando Henrique Cardoso, em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, disse que é “extremamente perigoso” fazer promessas ao povo e depois não ter condições de cumprí-las. “Eu fui candidato quando prometia, prometia coisas que não estava ao meu alcance, não consegui cumprir. O que prometi e estava ao meu alcance eu avancei bastante”, afirmou. Ele afirmou, ainda, fora do ar, que pretende deixar por um tempo a cena pública e se dedicar a assuntos acadêmicos, além de doar seu acervo à Universidade Federal de São Paulo (USP), onde faz parte do corpo docente.
FHC considerou um “espetáculo fantástico” e “formidável” o processo eleitoral brasileiro. Ele fez questão de dizer que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva foi indiscutível e elogiou os dois candidatos. “Foi um comportamento de gente séria”.

O presidente afirmou, porfim, que o povo brasileiro é sábio e que elegeu governadores de todos os partidos, o que, na sua opinião, teria equilibrado o resultado final da campanha, ao lado da eleição do petista para a Presidência da República.

Leia a íntegra da entrevista, por William Bonner e Fátima Bernardes

Qual foi a sua avaliação do processo eleitoral desse ano?

Foi um espetáculo fantástico. No primeiro turno houve alguns probleminhas, mas muito pouco. No segundo turno, nem isso. Pouca boca de urna. Uma eleição bonita, onde os brasileiros tomaram suas decisões. Eu disse, desde o início, que a mim só cabia respeitar a vontade do povo brasileiro. É indiscutível: o Lula ganhou com uma boa margem de votos. Também é indiscutível que o Serra foi um candidato que se comportou a altura. Houve poucos debates, mas o comportamento foi o de gente séria. Não houve nenhuma diminuição de nível da campanha. Depois, eu acho que o povo brasileiro, que é sábio, na eleição dos governadores equilibrou o jogo. Então, partidos que perderam a eleição ganharam a eleição para governadores. O PSDB que fez sete governadores, o PMDB, o PFL e vários outros. Isso mostra que o nosso povo sabe, no fundo, fazer o equilíbrio necessário. Para um país como o Brasil, tão grande e diversificado, convém que tenha uma certa variedade, até mesmo essa alternância.

Que balanço o senhor faria do seu governo?

Primeiro e fundamental, nós garantimos a democracia. Isso para mim é mais importante do que o aspecto econômico, onde nós também garantimos a estabilidade. Desde que eu fui ministro da Fazenda, que nós lutamos contra a inflação, os brasileiros esqueceram a tragédia que é a inflação continuada e crescente. Isso foi importante porque permitiu organizar o Brasil. Nós tivemos que reestrurar a administração pública e o orientar o estado para uma ação mais social. Criamos programas na área de saúde, de educação. As Nações Unidas acabam de dar um prêmio que não é a mim, mas ao povo brasileiro, que nós conseguimos avançar nas áreas sociais de maneira bastante marcante. Em função disso, houve paz no Brasil. Mesmo as greves, que em outra época eram marcantes, não existe mais isso. Nós aprendemos a negociar. Os sindicatos negociam, os patrões também. Claro, que faltou muita coisa. Faltou continuar as reformar. A oposição ao meu governo foi muito dura, porque ela não se limitou a fazer oposição ao governo, mas fez oposição a coisas boas para o Brasil. A reforma da Previdência ficou paralisada, a reforma política engatinhou. A reforma tributária até que avançou algo, mas podia ter sido muito mais. E também dada a herança imensa de problemas, por mais que se faça, ainda falta fazer muito. Como conjunto, eu diria que nós criamos um clima de concórdia e tranqüilidade, que permitiu o resultado que o mundo todo admira: como nós fomos capazes de votar livremente e absorver uma oposição tão dura, tão vigorosa e hoje estamos fazendo essa transição.

O senhor acha que houve alguma falha do próprio governo por não ter conseguido avançar nesses erros que o senhor mesmo dest