FHC 2003

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Publicado domingo, 26 de outubro de 2003 as 23:01, por: cdb

A máxima é de Tancredo, mas ele, em sua modéstia a atribuía “a um mineiro velho”: mais difícil, mas mais necessário, do que administrar o êxito, é administrar a derrota. E se, para administrar o êxito, é preciso não acreditar nele, e só se administra a derrota, recebendo-a com estoicismo.

Não se sabe bem quando é que o Sr. Fernando Henrique Cardoso foi mais falastrão: se quando presidente, se agora, que se encontra na planície. Em Minas, quando uma pessoa não consegue convencer-se de que já não ocupa uma posição de grandeza, dela se diz que ainda apeou do cavalo, embora o cavalo já não o sinta em seu dorso. Ou seja, o cavalo cuida de sua vida, vai pastar, beber água ou entender-se com a sua égua: e o cavaleiro continua ali, segurando rédeas inúteis e esporeando com os calcanhares nus.

Em lugar de fazer críticas ao governo de Lula, o ex-presidente faria melhor mantendo-se calado, discreto. Ninguém lhe pede que elogie o sucessor, mas muitos lhe agradeceriam o seu silêncio. O presidente sabe – ou devia saber – que Lula, pelas suas próprias razões, tem resistido aos que lhe recomendam revelar à Nação as dificuldades herdadas. Não são poucos os brasileiros que começam agora a perguntar por que privatizamos como privatizamos e por que assumimos compromissos como os que assumimos. Quais foram as compensações ao desmantelamento do setor estatal e à desnacionalização das empresas privadas brasileiras?

O governo de Lula talvez tenha errado muito – mas não errou nada, se comparado ao de seu antecessor. Talvez esteja certo Fernando Henrique, ao afirmar que falta imaginação ao atual governo. É bom que falte. De um modo geral, os governantes devem conter a sua imaginação, que é um dos sinônimos da fantasia. É preciso, ao contrário, debruçar-se sobre a dura e feia realidade e administrá-la com toda prudência e com os recursos disponíveis. É melhor um governo feijão-com-arroz, para que seja, exatamente, um governo com mais feijão e mais arroz.

A nostalgia do poder está perturbando o ex-presidente da República. Até mesmo para que possa ser eventualmente ouvido, em alguma opinião correta, convinha-lhe ficar calado quando não tem nada de sério a dizer, senão manifestar, de forma oblíqua, o seu inconformismo em não ter proclamado a monarquia, em lugar de obter apenas a reeleição.

José Dirceu foi até elegante, ao aconselhar ao ex-presidente o cuidado com seus livros e com seus netos. Poderia dizer-lhe que, com o tempo disponível, pode até mesmo estudar, agora e seriamente, a realidade sociológica do Brasil e ler alguns autores nacionais que não parece conhecer bem, mesmo porque ele os considera inferiores ao seu talento, como Manoel Bonfim e
Gilberto Freire.

Requião e a Federação

Está faltando aos governadores de outros Estados a consciência federativa do governador do Paraná. Podem chiar os que quiserem, mas Requião está obedecendo à lei e defendendo a autonomia de seu Estado, fechando as divisas à soja transgênica. Ele não tem como vedar a fronteira internacional contra o tráfico de armas, drogas e dinheiro, o que é da (in)competência federal. Mas as divisas com os outros estados estão sob a jurisdição de seu poder e de seu dever.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, “Mar Negro” (2002).