Falta de oportunidades para jovens originou motins de Londres

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Publicado quarta-feira, 28 de março de 2012 as 08:41, por: cdb

O painel nomeado pelo Governo para estudar as causas dos motins de Londres aponta também outros fatores, como a desconfiança face à polícia, as falhas no sistema de justiça na reinserção, a falta de acompanhamento dos pais e o materialismo dos jovens londrinos. E conclui que é preciso dar-lhes mais “participação na sociedade” para que os motins não se repitam.Artigo |28 Março, 2012 – 15:37Foto hozinja/Flickr

“Quando as pessoas não sentem que têm razões para evitar sarilhos, as consequências podem ser devastadoras para as comunidades”, afirmou a presidente da comissão independente nomeada pelo Governo britânico, Darra Singh, citada pelo Guardian.

As reações políticas a este relatório não pouparam críticas à posição do primeiro-ministro, que já depois dos motins sempre encarou o assunto como um caso de “pura e simples criminalidade”. Para a deputada trabalhista Diane Abbot, “as comunidades sentem-se assediadas pela polícia e marginalizadas nas suas perspetivas de emprego, e são bombardeadas com lembranças de vidas que muito provavelmente nunca terão”.

O relatório diz que “a chave para evitar futuros motins é ter comunidades que funcionam” e propõe medidas como multas para as escolas que expulsam crianças sem as ensinar a ler corretamente, melhor e mais atempado apoio às famílias em dificuldades ou mais emprego para os jovens. E reconhece que “os serviços públicos apontam um grupo de aproximadamente meio milhão de ‘famílias esquecidas'” no país. “Temos de dar a todos uma participação na sociedade”, defendeu Darra Singh.

Mas o destaque dado à necessidade de trabalhar o papel da família para prevenir novos motins também mereceu críticas por parte da fundadora da ONG Kids Company, que acusou a comissão de seguir um “modelo classe média”. “Eles ainda partem do princípio que a família destes jovens está intacta, quando 84% das crianças que nos chegam fugiram de suas casas. Na grande maioria, são crianças vítimas de maus-tratos por parte das suas famílias”, acrescentou Camila Batmanghelidj, para quem não foram problemas de caráter que levaram muitos jovens a juntarem-se aos motins, mas sim o desemprego e as dificuldades.

O relatório também constata que metade das queixas registadas nos motins dizem respeito ao saque de lojas de produtos apetecíveis na sociedade de consumo. E pede ao Governo que proteja os jovens do marketing excessivo e que trabalhe para aumentar a resistência das crianças às mensagens publicitárias, abrindo um diálogo entre Governo e as grandes marcas.

A desconfiança face à polícia, que assassinou Mark Duggan e despoletou a onda de revolta em agosto passado que alastrou a outras cidades britânicas, é outro dos pontos focados neste relatório. Em dezembro, um estudo da London School of Economics em conjunto com o Guardian, com entrevistas a centenas de participantes nos motins, concluiu que foi a antipatia com o comportamento quotidiano da polícia em muitos bairros que levou muitos deles a sair à rua e a aproveitar o clima de impunidade para roubar artigos das lojas saqueadas.

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