Facções afegãs contestam divisão de cargos no governo pós-talibã

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Publicado sexta-feira, 7 de dezembro de 2001 as 19:33, por: cdb

Reclamações sobre a divisão de ministérios. Este foi o tom das principais reclamações anunciadas por algumas das facções afegãs envolvidas nas negociações para a montagem de um governo de coalizão que deverá se instalar em breve na capital do Afeganistão, Cabul. O que acontece é que – mal foi fechado na Alemanha o acordo estabelecendo a divisão de poder no governo que comandará a primeira fase da transição no Afeganistão pós-Talibã – os líderes afegãos já dão mostras das dificuldades à frente para a nova administração do país. Ontem, o chefe militar uzbeque Rashid Dostum – que controla a região de Mazar-i-Sharif – acusou os negociadores que decidiram o futuro do Afeganistão em Königswinter de não levarem em conta os interesses de seu grupo e anunciou um boicote ao próximo governo, ao mesmo tempo que o líder espiritual pushtu Sayed Ahmad Gailani fez uma acusação semelhante.

Dostum – que controla a facção uzbeque Junbish-i-Milli e faz parte da Aliança do Norte – afirmou ter sido humilhado e que a pasta das Relações Exteriores fora prometida a seu grupo, mas acabou recebendo os ministérios da Agricultura, da Indústria e da Mineração ao invés disso. Seu grupo é um dos que formam a Aliança, a principal beneficiada no acordo, com mais da metade dos cargos ministeriais.

“Estamos muito tristes”, desabafou o general Dostum. “Anunciamos nosso boicote a este governo e não iremos a Cabul até que haja um governo apropriado no poder”. Ele afirmou ainda que, em represália ao acordo, não permitirá que funcionários governamentais tenham acesso à área sob seu domínio, onde estão as jazidas afegãs de petróleo e gás, apesar de prometer respeitar os acordos alcançados na Alemanha.

ONU adia envio de força de paz
O representante especial da ONU para o Afeganistão, Lakhdar Brahimi, minimizou as reclamações de Dostum, embora as desavenças entre os chefes militares afegãos já tenham jogado no lixo cinco acordos de paz desde 1989. “O general Dostum pode contestar o acordo, mas seu representante o aceitou”, enfatizou Brahimi.

Por sua vez, Gailani, do Grupo de Peshawar, que participou da conferência, também reclamou de que o acordo foi desequilibrado na distribuição de ministérios dentro do futuro governo afegão. O grupo dele e o de Chipre, que representavam os refugiados no Paquistão e no Irã, eram os de menor peso na conferência, face à Aliança do Norte e à facção do ex-rei Zahir Shah.

Em Nova York, o Conselho de Segurança da ONU aprovou unanimemente as decisões tomadas na Alemanha e exortou a comunidade internacional a cumprir as promessas feitas e ajudar financeiramente na reconstrução do Afeganistão. No entanto, a votação da resolução sobre o envio de uma força internacional de paz ao país foi adiada.