Fabricação do ódio

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Publicado segunda-feira, 1 de outubro de 2001 as 10:05, por: cdb

“Será melhor para você deixar este país”, dizem dois homens de “aparência estranha” a uma jovem em Tampa, Flórida. A jovem é brasileira e vive há três anos na terra de Tio Sam. Em pânico, ela envia e-mails pedindo conselho a amigos e parentes: deve ou não deixar os Estados Unidos? Fico sabendo dessa história por intermédio de sua prima, que não sabe o que responder. É a primeira vez que ela se depara com o problema de ser estrangeira.
Estrangeiro: o que é estranho, membro de uma outra cultura, comunidade, etnia ou raça. Só que nada disso existe na natureza. Cultura, comunidade, etnia e raça são construções conceituais, representações de valores. Ninguém parou para pensar que a moça era “estrangeira” até acontecer o atentado de 11 de setembro. Foi o ódio político que agitou o conceito, e não o contrário.
(Vamos acentuar isso: mesmo “raça” é um conceito biologicamente insustentável. O mapeamento do DNA serviu, ao menos, para mostrar que dois indivíduos da mesma cor ou “raça” podem ter estruturas genéticas completamente diferentes, ao passo que dois indivíduos de cor ou “raça” distintos podem apresentar estruturas muito semelhantes. O resto é bobagem e superstição supostamente científica.)
A história, infelizmente, é riquíssima em exemplos de como são fabricados os ódios, os preconceitos, as identidades chauvinistas, os exclusivismos nacionais, a exaltação patriótica e a segregação das “minorias”.
Em nenhum país da Europa, os judeus eram tão assimilados à cultura quanto na Alemanha do início do século 20. Tão assimilados que a imensa maioria da comunidade judaica alemã recebeu muito mal o movimento sionista, que postulava a necessidade da materialização territorial da identidade judaica sob a forma de um estado-nação. Temia-se que levantar o problema da identidade criaria ódios onde não havia ódio algum. Adolf Hitler teve que construir o “inimigo judeu”, teve que responsabilizá-lo pela crise para iniciar as perseguições. De novo: a questão racial foi politicamente arquitetada.
O mesmo aconteceu inúmeras vezes ao longo do século, na África, na Europa e em todos os cantos do mundo. A Guerra da Bósnia foi absolutamente exemplar a esse respeito. Repentinamente, muçulmanos, sérvios e croatas “descobriram” que não poderiam mais dividir o território – só que até “descobrirem” isso, eles se casavam, eram amigos e vizinhos, conviviam normalmente dentro dos limites da vida civilizada.
Os ódios étnicos, religiosos, nacionais e culturais sempre eclodem como resultado da demagogia e da conveniência de grupos políticos e econômicos determinados. Sempre dão lucro a alguém, sempre são instrumentalizados por gente ambiciosa e sem escrúpulos. A razão é simples: o apelo a esse tipo de ódio é facilmente compreensível e assimilável por qualquer um (tanto quando o apelo ao sexo e à violência são também universais, como sabem os senhores de Hollywood e das empresas publicitárias).
Todos sentem medo do desconhecido, é o sentimento mais humano que existe. Basta insistir no fato de que o vizinho fala um outro idioma, adora um outro deus, aprecia outras comidas para fazer dele um “suspeito” potencialmente hostil a tudo o que consideramos mais sagrado. E quem não gosta de jogar no outro, ainda mais se o outro for um “estranho”, a culpa pelos próprios sofrimentos?

*José Arbex Jr. é jornalista