‘Exposição quer trazer catadores para o mundo dos negócios’, diz líder

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quarta-feira, 28 de novembro de 2012 as 16:47, por: cdb

‘Exposição quer trazer catadores para o mundo dos negócios’, diz líder

Expocatadores chega à terceira edição em São Paulo com o objetivo de favorecer parcerias entre cooperativas de trabalhadores, empresas e gestores públicos

Por: Tadeu Breda, da Rede Brasil Atual

Publicado em 28/11/2012, 18:39

Última atualização às 18:39

Tweet

São Paulo – Criada em 2010 para “trazer os catadores de material reciclável para o mundo dos negócios”, a Expocatadores chega à terceira edição mais empresarial que nunca. “Temos de entender que nossa atividade é um negócio”, diz Roberto Laureano da Rocha, membro da coordenação do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). “Embora seja um negócio solidário, está dentro do mercado, inserido dentro de uma cadeia produtiva com uso de tecnologia.”

Portanto, os diversos braços do negócio da reciclagem estarão presentes de hoje (28) até sexta-feira (30) no pavilhão amarelo do Expo Center Norte, centro de convenções localizado na zona norte de São Paulo. Além de centenas de catadores do Brasil, América Latina, Ásia e África, a Expocatadores está repleta de empresas que vieram mostrar suas soluções para reutilizar, armazenar e processar materiais que normalmente são descartados pela população. Estima-se que o país gaste R$ 12,8 milhões por dia com coleta e destinação do lixo.

De acordo com Laureano, o evento é também uma oportunidade para que os catadores tomem contato com tecnologias inovadoras que podem melhorar a qualidade de seu trabalho – e de suas vidas. É a primeira vez que a Expocatadores se mostra também como espaço para que cooperativas e empresas fechem negócios – fato que é visto como um passo a mais na trajetória do MNCR, que tem apenas dez anos, mas coleciona conquistas. “A principal foi ter sido atendido pelo próprio presidente Lula (Luiz Inácio Lula da Silva), que é o grande amigo dos catadores”, avalia Laurindo. “A partir daí abriu-se espaço para a institucionalização de políticas públicas para o setor.”

A receptividade do Planalto com os catadores continua com a presidenta Dilma Rousseff, que até o momento tem mantido a tradição lulista de encontrar-se anualmente com representantes da categoria durante o Natal. Neste ano, segundo Laurindo, a reunião está marcada para o dia 21 de dezembro, em São Paulo – os detalhes da cerimônia serão acertados na Expocatadores. Na entrevista abaixo, o coordenador do MNCR fala à RBA um pouco da trajetória do movimento e dos desafios para o futuro.

O que motivou a criação do MNCR há dez anos?

Na época, havia uma necessidade muito grande de sermos reconhecidos como profissionais e trabalhadores. Aí nos organizamos em categoria. Em 2002, éramos cerca de 600 mil catadores. Hoje somos 800 mil. De lá pra cá o movimento cresceu, porém muito mais no espaço urbano, com as pessoas que estão em situação de rua, do que nos lixões. Pouco avançamos em organizar os catadores que estão dentro dos lixões.

Quais as principais conquistas que vocês tiveram nesses dez anos?

A principal foi termos sido atendidos pelo próprio presidente Lula, que é o grande amigo dos catadores. A partir daí abriu-se espaço para a institucionalização de políticas públicas: construção de galpões, investimentos na infraestrutura e logística de trabalho dos catadores, aquisição de caminhões etc. Conseguimos ferramentas para fortalecer o trabalho dos catadores. Em alguns municípios, como Londrina (PR) e Natal (RN), temos colhido resultados muito bons.

O que ainda falta fazer?

O grande desafio é erradicar a presença dos catadores dentro dos lixões, para que possam ter seu espaço e sua organização. Não queremos apenas tirá-los do lixão e deixá-los ao deus-dará, mas trabalhar no processo de organização para que possam fazer o mesmo trabalho, só que de forma mais organizada, segura e produtiva. Queremos também que as prefeituras e o setor privado reconheçam o trabalho dos catadores como uma prestação de serviço.

Quando e por que surgiu a ideia de organizar a Expocatadores?

A Expocatadores surgiu em 2010. A ideia é trazer os catadores para o mundo dos negócios, entender que nossa atividade é um negócio. Embora seja um negócio solidário, está dentro do mercado, inserido dentro de uma cadeia produtiva, com uso de tecnologia etc. Antes aconteciam muitas feiras de reciclagem, mas os catadores não chegavam até elas: chegavam principalmente técnicos de prefeitura e iniciativa privada, que levavam a tecnologia para os catadores. Aqui, não, a tecnologia está disponível aos catadores, para avaliarem se é boa, se não é, se ajuda ou não seu trabalho. Com a Expocatadores, os trabalhadores estão tendo a oportunidade de vivenciar um espaço de negócios.

É comum fechar muitos negócios na Expocatadores?

Na verdade, as duas edições anteriores se pautaram mais pela exposição mesmo. Esta agora é que está sendo mais voltada aos negócios, com características de uma grande feira. Então, apenas no final vamos saber se cumpriu seu objetivo. Mas a ideia, mesmo não havendo tantos negócios, é que os trabalhadores saibam da existência de várias oportunidades para melhorar sua qualidade de trabalho.