Exposição em Londres mostra que Saddam não é a única imagem do Iraque

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quinta-feira, 13 de março de 2003 as 10:01, por: cdb

Um grupo de exilados iraquianos está usando fotos de família, poemas, vestidos, mapas de Bagdá, jóias e livros de receitas para contar um pouco de suas vidas.

As peças integram a mostra Our Life in Pieces (Nossa Vida em Pedaços), em cartaz na Diorama Gallery, em Londres, e composta apenas de peças cotidianas que os iraquianos carregaram quando partiram para o exílio, há anos ou mesmo décadas.

De acordo com uma das organizadoras da mostra – a escritora iraquiana Heifa Zangane-, a exposição é mais capaz de despertar a atenção do público britânico para a situação no Iraque do que as imagens do conflito vistas nos jornais e na TV.

“Você pode ver pequenas coisas, sem importância aparente, como um vestido, e saber que existe a história de uma mulher por trás dele. As cenas repetitivas mostradas na mídia ocidental anulam a existência de seres humanos no Iraque.”

Imagem de Saddam

Segundo a escritora, uma única imagem acaba sendo usada para representar todos os iraquianos.

“Nós falamos do Iraque e imediatamente surge a imagem de Saddam Hussein. Algo tão forte que cobre tudo que há de humano no país. As pessoas tendem a esquecer que há milhões de pessoas que se exilaram porque lutaram contra o regime de Saddam”, afirma.

A exposição foi criada pela ONG Act Together (Ação Conjunta) formada por mulheres iraquianas que há dois anos militam contra sanções econômicas impostas ao Iraque.

Por meio de anúncios em jornais árabes e em centros comunitários, as integrantes da ONG convidaram iraquianos no exílio a oferecerem objetos que tivessem algum significado para eles.

“É uma coleção de objetos e experiências”, comenta Maysoon Pachachi, uma das organizadoras da exposição.

Os iraquianos podem pensar em sua própria identidade, algo especialmente importante agora, porque grandes mudanças irão acontecer no Iraque, de uma maneira ou de outra.”

As próprias organizadoras também contribuíram para a mostra com artigos pessoais. Heifa Zangane comenta a importância de um dos objetos que cedeu para a mostra, um retrato de Iman Ali, primo do profeta islâmico Maomé.

“É um retrato lindo e colorido de Iman Ali, alguém que eu identifico como um símbolo de justiça. Ele possui uma bela frase, que a meu ver poderia ser a base do marxismo, ‘se a pobreza fosse um homem, eu o mataria'”, conta a escritora.

“Quando era criança, não podíamos ter retratos nas paredes, porque isso não é permitido entre os muçulmanos sunitas. Usa-se caligrafia, para expressar a arte.”

Mas quando eu ia à casa de nossos vizinhos, que eram muçulmanos xiitas, era fascinante, porque todas as paredes estavam cobertas com estas lindas imagens, de Iman Ali em diferentes poses, nas quais ele parece forte, fantástico, colorido”, acrescenta.

Já Maysoon Pachachi contribuiu para a mostra com peças que dizem respeito ao seu histórico familiar.

“Ofereci uma caneca de prata que me foi dada quando nasci. Ela foi gravada com letras negras, algo típico do Iraque, e mostra cenas do rio Tigre.”

“Para mim, é algo emblemático, porque a casa de meus avós ficava próxima ao rio. Também escolhi esse objeto porque o copo foi dado à minha avó, pela minha bisavó – a criadora da primeira universidade voltada para mulheres no Iraque, ainda na década de 30”, conta.

Pachachi tem um histórico de ativismo político que já a levou a Porto Alegre, onde participou da mais recente edição do Fórum Social Mundial -“uma experiência fantástica”, conta ela.

Entre as peças que ela destaca na exposição, figura também uma de evidente simbolismo político – um pedaço de tenda que pertenceu a um grupo de exilados do recém-fechado centro de refugiados de Sangatte, na França.

“A pessoa que ofereceu este objeto foi uma das últimas refugiadas de Sangatte a ser aceita na Grã-Bretanha. Os refugiados que eram na maioria afegãos e iraquianos.”

“Quando o centro estava sendo fechado, representantes da Cruz Vermelha que estavam trabalhando ali, começaram a cortar pedaços de