Ex-secretário revela no ‘Roda Viva’ porque pediu demissão do governo Lula

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Publicado terça-feira, 4 de novembro de 2003 as 01:12, por: cdb

O ex-secretário Nacional de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares revelou que estava sofrendo um processo de fritura dentro do governo Lula e por isso pediu demissão. Em entrevista ao programa ‘Roda Viva’, da TV Cultura, ele disse que além de um dossiê com falsas denúncias, o esquema envolvia até escuta clandestina de suas conversas.

Luiz Eduardo evitou falar em nomes, mas ao responder à pergunta se haveria algum conflito com o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, citou um episódio ocorrido ao final da campanha que elegeu o presidente Lula. Num encontro com o ministro, o então deputado federal Marcos Rolim (PT-RS) perguntou que papel Luiz Eduardo iria desempenhar no governo:

– Se depender de mim, nenhum. Porque ele boicotou a campanha da Benedita no Rio – teria respondido José Dirceu.
 
Segundo Luiz Eduardo, que foi candidato a vice na chapa de Benedita da Silva derrotada na eleição ao governo do Rio no ano passado, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) e o deputado federal Jorge Bittar (PT-RJ) presenciaram a conversa.

Sobre o dossiê, Luiz Eduardo diz que todas as denúncias são inconsistentes: traficante de pesquisa, superfaturamento de um automóvel, viagem à Rússia com a mulher sem necessidade e favorecimento com recursos do município de Canoas (RS).
 
O ex-secretário se defende dizendo que o dossiê foi feito por dois funcionários de sua própria equipe – ele não quis revelar os nomes. Um deles teria interesse que um projeto da Secretaria Nacional de Segurança Pública de grande investimento fosse executado por empresas estrangeiras, mas Luiz Eduardo achou melhor deixar aos cuidados do Instituto Militar de Engenharia (IME).

A outra pessoa seria uma funcionária filiada ao PT que queria dar prioridade na distribuição de recursos aos municípios administrados pelo partido.

Luiz Eduardo citou outros dois episódios para justificar o desgaste do cargo. Depois de negociar com os 27 governadores a distribuição do Fundo de Segurança Nacional (R$ 404 milhões), foi informado pelo secretário-executivo do Ministério da Justiça, Luiz Paulo Barreto, que deveria abrir mão de R$ 160 milhões porque o Ministério do Planejamento iria destinar parte destes recursos (R$ 114 milhões) para aplacar a crise que se desenhava na Polícia Federal.

Pouco tempo depois, um funcionário lhe contou que se recusou a gravar clandestinamente uma entrevista sua ao jornal americano Washington Post. Segundo Luiz Eduardo, esta pessoa disse que a ordem para ouvir todas as suas conversas teria partido de funcionários mais graduados do Ministério da Justiça:

– Se é para ser fritado desta forma, indecente e imoral, eu achei melhor sair – disse o ex-secretário.

Luiz Eduardo pediu demissão há 15 dias após a divulgação de que contratara a atual mulher, Miriam Krezengier Azambuja Guindani, e a ex-mulher, Bárbara Musumeci Soares, para prestar serviços de consultoria à secretaria. Na entrevista ao ‘Roda Viva’, ele justificou as contratações dizendo que no país faltam pessoas tecnicamente qualificadas na área de segurança pública.

O ex-secretário disse também não entender o silêncio do Palácio do Planalto no caso que culminou com sua demissão:

– Esta é uma pergunta que eu também me faço. Evidentemente esta história não está bem contada para mim.