Europa abrirá as portas para os alimentos transgênicos

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Publicado terça-feira, 28 de outubro de 2003 as 16:26, por: cdb

O Secretário de Estado norte-americano, Collin Powell, em manifestações favoráveis aos alimentos transgênicos pôs o dedo na ferida do que representa, na realidade, o ponto central da grande e difícil batalha entre EUA e Europa sobre o polêmico assunto: a possibilidade para os grandes grupos norte-americanos do setor fazerem excelentes negócios no Velho Continente.

Por enquanto, o “negócio” norte-americano tem sido limitado por uma série de normas, coisa que está próxima de ser alterada ao longo dos próximos anos.

Enquanto as pesquisas de opinião da França, Itália e outros países europeus continuam confirmando que os europeus não querem saber nada sobre alimentos transgênicos, a UE está a ponto de declarar o fim de quatro anos de moratória sobre os temidos – na Europa – produtos com “organismos geneticamente modificados” (OGM).

O dia-chave para Bruxelas é o 7 de novembro, quando entrarão em vigor duas normas: uma sobre a própria implantação dos produtos e outra sobre a embalagem que indicaria a presença de OGM – medidas que acabam de ser publicadas pelo Boletim Oficial dos 15 países comunitários.

O temo “fim da moratória” pode, na realidade, confundir a cabeça. Ao longo dos últimos anos a relação entre Europa e os OGM foi bastante complicada. A partir de junho de 1999, quando cinco países da UE (França, Itália, Grécia, Dinamarca e Luxemburgo) pediram que fosse suspensa a introdução de novos OGM, na verdade a Europa continuou cultivando – e consumindo – tanto as sementes como a “comida Frankestein” (como são chamados os alimentos OGM pelos “verdes” europeus) aprovada antes dessa data.

Nestes últimos anos, milhões de tonelada de soja OGM da Argentina e dos EUA foram, por exemplo, importadas para a Europa para alimentar o gado local, enquanto que na Espanha, somente este ano, foram cultivados 32 mil hectares de milho transgênico, que é geneticamente resistente a um parasita.

De concreto, o que ocorrerá a partir do dia 7 de novembro é que haverá novos OGM que deverão ser autorizados aqui no final do ano. Ao mesmo tempo, a Comissão Européia reabrirá seu trabalho sobre as diferentes pesquisas sobre o assunto, em produtos como o milho, colza, tomates, soja, etc. – Por enquanto, o “dossiê” em que os especialistas mais avançaram é aquele sobre o milho Bt 11 (muito resistente a herbicidas) da empresa suíça Syngenta.

SAÚDE E MEIO AMBIENTE

Além desses dados, o ponto fundamental na Europa do “debate OGM”, o qual já leva anos, é se esses produtos fazem, ou não, dano à saúde do homem e ao meio ambiente.

Sobre esse último aspecto, um estudo publicado recentemente na Grã-Bretanha após três anos de pesquisas sobre a colza, a beterraba branca e o milho particularmente resistente aos herbicidas, verificou nos dois primeiros casos um impacto negativo sobre a biodiversidade do campo onde foram cultivados. Mas para o terceiro caso, a conclusão foi oposta, no sentido de que com o milho OGM, as sementes e os insetos aparecem em maior quantidade que nos campos cultivados com o milho tradicional.

A conclusão do estudo britânico é, no fundo, bastante enigmática, pois de acordo com as conclusões do relatório, o efeito dos OGM no meio ambiente é real, mas ainda não se conseguiu entender se é um efeito positivo ou negativo.

Sobre esse assunto, o debate está aberto, enquanto que sobre os problemas dos OGM em relação à saúde do homem, a grande maioria dos especialistas mostra que não há perigo algum.

A experiência demonstrou que nos países em que esses tipos de produto são muito cultivados e consumidos, não surgiu nenhum problema para saúde. Ficam no ar as respostas sobre eventuais danos em longo prazo, mas este é um assunto que, de toda forma, vale também para outros alimentos.

Retomando as manifestações favoráveis de Powell, não há então provas concretas de que a “comida Frankenstein” seja um inconveniente para a saúde dos homens.