EUA vão reduzir presença na Líbia e querem distância da Síria

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Publicado domingo, 27 de março de 2011 as 14:33, por: cdb
Síria protestos
Os protestos na Síria têm sido reprimidos com violência

Os Estados Unidos vão reduzir o seu papel militar na zona de exclusão aérea na Líbia já na próxima semana, enquanto outras nações começam a se concentrar em como tirar Muammar Gaddafi do poder, disseram neste domingo importantes autoridades norte-americanas. Em entrevistas a canais de TV, os secretários de Estado e de Defesa dos EUA levantaram a possibilidade de que o regime de Gaddafi possa desmoronar e disseram em uma conferência em Londres na terça-feira que vão discutir estratégias políticas para acabar com um governo que há 41 anos comanda uma das nações exportadoras de petróleo da África.

Os Estados Unidos e outros países começaram a bombardear a Líbia em 19 de março e impuseram uma zona de exclusão aérea para impedir que as forças de Gaddafi atacassem rebeldes e civis no leste do país. A Líbia é o mais recente país árabe a registrar levantes contra um regime autoritário. Rebeldes líbios têm se dirigido ao oeste do país para recuperar territórios abandonados pelas forças em retirada de Gaddafi, que têm sido enfraquecidas por ataques aéreos ocidentais e, de acordo com o secretário de Defesa norte-americano, Robert Gates, são em grande parte incapazes de reagir.

Sem envolvimento

Quanto à revolta dos sírios, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, excluiu a possibilidade de os Estados Unidos se envolverem naquele por enquanto como se envolveram na Líbia, dizendo em entrevista à TV que cada levante árabe é único e singular. Falando em uma entrevista gravada no sábado, Clinton disse que os Estados Unidos deploram a violência na Síria, mas que as circunstâncias são diferentes da situação na Líbia, onde o líder Muammar Gaddafi usou sua força aérea, além de blindados pesados, contra a população civil.

Indagado se o mundo pode esperar um envolvimento dos EUA na Síria na linha da zona de exclusão aérea que os EUA e outros países impuseram sobre a Líbia, Hillary Clinton disse ao programa Face the Nation with Bob Schieffer, da CBS News:

– Não. Cada uma dessas situações é singular. Com certeza deploramos a violência na Síria. Exortamos a Síria, assim como temos exortado todos esses governos, a responder às necessidades de seus povos, a não praticar violência, a permitir os protestos pacíficos e iniciar um processo de reforma econômica e política.

Clinton sugeriu que as circunstâncias presentes na Síria e na Líbia são diferentes, já que não há o mesmo nível de violência na Síria e que a repressão governamental aos protestos nesse país ainda não gerou a mesma condenação global, nem chamados da Liga Árabe e outros pela criação de uma zona de exclusão aérea, como foi o caso com a Líbia.

– Se houvesse uma coalizão da comunidade internacional, se fosse aprovada uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, se houvesse um chamado da Liga Árabe, se houvesse uma condenação que fosse universal, mas isso não vai acontecer porque creio que ainda não está claro o que vai acontecer, como os fatos vão se desenrolar na Síria. O que vem ocorrendo nesse país nas últimas semanas é profundamente preocupante, mas existe uma diferença entre convocar sua força aérea e bombardear indiscriminadamente suas próprias cidades (como na Líbia) e ações policiais que, francamente, excederam o uso de força que qualquer um de nós gostaria de ver – concluiu Clinton.

Mais tropas

O exército da Síria reforçou sua presença na cidade de Deraa, no sul do país, ponto focal dos protestos sangrentos que vêm ocorrendo no país, e soldados foram às ruas em um porto do norte onde as tensões estão crescendo, revelaram moradores no domingo. Os protestos, que começaram em Deraa há oito dias, representam o desafio mais sério ao partido Baath, no poder há 48 anos, e seu líder, o presidente Bashar al-Assad.

Os protestos – nos quais manifestantes em algumas cidades atearam fogo às sedes do partido governista – teriam sido impensáveis dois meses atrás no país árabe rigidamente controlado. Até agora o exército vem exercendo papel apenas secundário em relação à polícia e às forças especiais enviadas à cidade para tentar sufocar mais de uma semana de protestos, durante a qual pelo menos 55 pessoas foram mortas em Deraa e redondezas, disse um grupo de defesa dos direitos humanos.

Os manifestantes pedem liberdade política e o fim da corrupção, mas também vêm dirigindo sua revolta contra Assad, tendo ateado fogo a uma estátua do falecido presidente Hafez al-Assad, que governou a Síria com mão de ferro por 30 anos até sua morte, em 2000. Na sexta-feira, forças de segurança dispararam contra manifestantes em Deraa, e houve informações sobre outros disparos em outras partes do país. As autoridades atribuíram a violência a “gangues armadas.”

A turbulência chegou à importante cidade portuária de Latakia, onde há segurança reforçada e onde, segundo uma fonte oficial síria, 12 pessoas – incluindo membros das forças de segurança, civis e “elementos armados” – foram mortas em dois dias de choques. Latakia é uma cidade de maioria sunita, mas também tem muitos residentes xiitas da seita alauíta que se mudaram para a cidade, vindos das montanhas vizinhas, nas últimas décadas.