EUA: drama nas prisões

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Publicado quarta-feira, 11 de junho de 2003 as 14:52, por: cdb

De 9 milhões de pessoas detidas e liberadas em 2002, mais de um milhão e 300 mil saíram como portadores do vírus da hepatite C, 137 mil estavam contaminados pelo vírus da aids e 12 mil tinham pego tuberculose. As prisões contemporâneas têm se tornado não apenas escolas do crime, mas também fábricas que multiplicam os problemas de saúde. Há dados assustadores nas prisões norte-americanas: de 9 milhões de pessoas detidas e liberadas em 2002, mais de um milhão e 300 mil saíram como portadores do vírus da hepatite C, 137 mil estavam contaminados pelo vírus da aids e 12 mil tinham pego tuberculose.
Esses dados, revelados pela Comissão Nacional sobre Saúde Penitenciária dos EUA – e publicados pelo Le Monde Diplomatique em junho – representam respectivamente 29%, 13% a 17% e 35% do número total de norte-americanos afetados por essas doenças.

Os presos nos EUA, com a histeria das políticas de tolerância zero – isto é, de absoluta intolerância -, fizeram com que, durante o governo Clinton, a população carcerária norte-americana se multiplicasse por dois, passando de um para dois milhões de pessoas. É a mais alta do mundo, em termos absolutos e também relativos – 686 presos por 100 mil habitantes (no Brasil, o número oficial é de 240 mil presos, 137 por 100 mil habitantes). Essa “epidemia de aprisionamento” – como se refere a ela o Le Monde Diplomatique – produziu uma incubação maciça de doenças infecciosas nos centros de detenção.

O uso de drogas, a prostituição, a violência sexual – tudo leva à multiplicação e ao descontrole das doenças. Ao mesmo tempo, seringas e camisinhas não são de uso corrente, faltando até mesmo água para a higiene básica dos presos. Além disso, a tatuagem e o piercing também tornam-se transmissores de aids e de hepatite.

O mais dramático é que, apesar disso tudo, pela retração dos serviços públicos de saúde nas duas últimas décadas nos EUA, as prisões se tornaram agências públicas de primeiros-socorros. No entanto, médicos punidos por erros ou por incapacidade profissional seguem trabalhando nas prisões. Porque atualmente, nos EUA, fora das prisões, 41 milhões de pessoas não têm cobertura médica e outros 71,5 milhões estão parcialmente – isto é, uma parte do ano – sem essa cobertura. Ruim dentro, pior ainda fora.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “Século XX – Uma biografia não autorizada” (Editora Fundação Perseu Abramo) e “Contraversões (com Frei Betto, Editora Boitempo).