Eu, Maria e Longinus

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 11 de novembro de 2002 as 17:30, por: cdb

Eu, Maria e Longinus

Domingo passado fui à missa. Há muito não ia e me sentia no dever desse contato que tenho com o Todo Poderoso. É, temos um acordo, acho. Eu vou de vez em quando ao templo e Ele me ajuda na vida, como assim dizem. Mas esse domingo foi diferente. Foi um balde d’água no meu credo, para falar a verdade. Pensei que sabia um pouco dos mistérios da fé – como fervoroso ex-coroinha comedor de hóstias (isso é outra história). Mas descobri que sou mesmo um inútil como católico. Conclui isso quando ouvi o padre, em seu sermão no outeiro da Glória, dizer que não há registro na Bíblia da ressurreição de Maria porque simplesmete não há provas de que ela tenha morrido. Pronto. Mais um mistério.

Caramba, pensei. Já pensou também, você, se Maria está viva, vagando por aí testando a humanidade, passando-se por não sei quem? Já pensou em ter esbarrado com ela pelas ruas? Não sei, penso assim, desde que ouvi o padre dizer aquilo. Por isso, comecei a prestar mais atenção nas velhas (sem trocadilhos, por favor). Percebi uma Maria em cada uma delas.

Há outros mistérios que nos envolvem. Estou cabreiro desde que assisti O Sexto Sentido, porque não sei se estou vivo. O mistério de Maria também me fez lembrar o caso da lança de Longinus. Para quem não se lembra, Longinus foi aquele romano filho da puta que mandou a lança no lado de Jesus, de onde – segundo a Bíblia – saiu água e sangue. Dizem muitos que esse Longinus, por castigo divino (é, ele duvidava do poder de Cristo), está vivo até hoje, vagando pelo mundo -e, vai por mim, deve continuar sendo um grande filho da puta. Há histórias também da lança, que se tornou uma relíquia cobiçada. Historiadores acreditam que ela esteja guardada com alguém. Acho conversa. Mas, para meu desespero maior, eis que leio uma crônica do Carlos Heitor Cony e o mesmo diz que um senhor no Brasil declara em bom tom que guarda a tal lança. E, o pior, este senhor é um conterrâneo meu lá em Minas.

Verdade ou não, prefiro acreditar que a lança se perdeu, que Maria, de certa forma, ainda vive, e que Longinus, onde estiver, continua sendo um filho da puta. Quanto a Jesus, também acredito em sua existência. Acho que se hoje ele voltasse, seria um cara gente boa, que bebesse chope na Cinelândia e dissecasse de futebol a política sem tropeços. Talvez você já tenha bebido com Ele e não saiba. E talvez também já tenha encontrado um Longinus por aí. Mas Maria, Maria é única, esteja onde estiver.