Ética Jornalística

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Publicado quinta-feira, 24 de novembro de 2005 as 15:39, por: cdb

A jornalista Judith Miller acaba de ser despedida pelo New York Times (NYT) depois de ter passado quase três meses na prisão por se ter recusado a identificar as fontes de um vazamento de informação sobre a identidade de uma agente secreta da CIA. Esta notícia parece algo paradoxal. Como é possível que uma jornalista de tão elevada exigência ética seja despedida por um dos jornais mais influentes do mundo? Mais estranho ainda é que não tenha havido nenhum movimento de jornalistas em favor da sua colega e muitos tenham manifestado as suas dúvidas acerca dos verdadeiros motivos do silêncio desta jornalista.

A explicação de tudo isto está no fato de Judith Miller ter sido a jornalista que mais prolificamente escreveu sobre as armas de destruição em massa de Saddam Hussein e mais zelosamente defendeu a tese de que tais armas existiam. Com fortes ligações aos neoconservadores que dominam a administração Bush, Miller teve acesso a informação confidencial que alegadamente justificava as suas reportagens e que pôde usar sob a condição de não a revelar, nem sequer aos próprios directores do NYT.

Segundo alguns analistas políticos, a persistência e o dramatismo das reportagens da jornalista tiveram um papel decisivo em condicionar a opinião norte-americana, no sentido de apoiar a invasão do Iraque e em influenciar, no mesmo sentido, muitos jornalistas estrangeiros. Ora, nos últimos meses souberam-se dois fatos importantes: não havia armas de destruição em massa no Iraque e a administração Bush sabia disso quando decidiu a invasão; as reportagens da jornalista do NYT foram parte de um esquema impressionante de manipulação da opinião pública e de produção de informação falsa que envolveu muitos meios de comunicação e jornalistas, não só nos EUA, como no resto do mundo.

O esquema envolveu o departamento de defesa, setores dos serviços secretos, especialistas de “gestão de percepção” e de “manipulação da informação”, contratados para o efeito, e ainda o Iraqi National Congress, uma organização de dissidentes iraquianos, criada pela CIA e dirigida por um exilado, Ahmad Chalabi, condenado por crimes contra a economia na Jordânia e hoje um dos homens fortes do Iraque.

Os detalhes da operação começam a ser conhecidos e mostram como a informação foi transformada em arma e em alvo de guerra: notícias falsas, inundando as redações de todo o mundo e incluindo segmentos televisivos com “embuste militar”; “operações psicológicas secretas”, envolvendo o favorecimento dos jornalistas amigos, a demonização dos hostis e a desmoralização dos que tentassem verificar ou cruzar a informação; envio de equipes de técnicos de informação e de contra-informação a países considerados estratégicos etc. etc.

O NYT pediu desculpa aos leitores por ter se deixado ser “vítima” da desinformação. Mas terá sido apenas vítima? Em livro recente, Richard Falk e Howard Friel revelam que os 70 editoriais do NYT sobre o Iraque, entre Setembro de 2001 e Março de 2003, não mencionaram nunca as palavras “direito internacional” ou “Carta da ONU”.

Mas o problema não é apenas norte-americano. Alguns jornais europeus (incluindo os nossos) encheram-se de editoriais e de páginas fazendo a apologia da guerra e lançando o opróbrio contra todos aqueles que se manifestavam contra ela, com base no direito internacional e na informação já então disponível, alguma da própria CIA, de que não havia armas de destruição em massa no Iraque nem havia nenhuma articulação entre Saddam e a Al Qaeda.

O NYT despediu a jornalista. O que aconteceu no resto do mundo? Algum jornalista confessou o erro ou foi punido? Alguém é responsável por esta monumental fraude contra a opinião pública mundial?

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal)