Eterno retorno do mesmo?

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Publicado sexta-feira, 7 de janeiro de 2005 as 11:09, por: cdb

Posso falar na taxa de câmbio outra vez? Não sei se devo. Não quero abusar da sua paciência, leitor. Sei que tenho insistido demais no tema da valorização do real. Mas como mudar de assunto se o governo brasileiro parece repetir sempre os mesmos velhos erros? O fato é que a equipe econômica do governo Lula não consegue ser criativa nem nos equívocos que comete.
“Fato”? Eis aí uma palavra que precisa ser usada com certo cuidado. “Não há fatos; só interpretações”, advertiu Nietzsche. O tema cambial é controvertido. Nada que é realmente relevante pode ser demonstrado ou refutado inequivocamente.

A preocupação com a apreciação da moeda brasileira pode parecer descabida ou prematura. O superávit da balança comercial chegou a quase US$ 34 bilhões em 2004. As exportações e importações de mercadorias cresceram mais de 30% em comparação com os valores registrados em 2003. A despeito da pesada carga de juros da dívida externa e outros rendimentos do capital estrangeiro, que superou os US$ 20 bilhões, o balanço de pagamentos em transações correntes registrou considerável superávit. Nos doze meses até novembro último, o saldo em conta corrente alcançou quase US$ 11 bilhões, o equivalente a 1,8% do PIB.

Além disso, o aumento do valor externo da moeda tem os seus atrativos. Barateia as viagens ao exterior e o consumo de bens importados. Facilita o combate à inflação, pois reduz os preços em reais não só dos produtos importados como também dos exportáveis. Não é por acaso que tantos governos se deixam seduzir pela valorização cambial. Boa parte dos piores desastres econômicos da história brasileira e latino-americana está associada a episódios de apreciação persistente do câmbio.

No Brasil, o governo Fernando Henrique Cardoso, de melancólica memória, foi o exemplo mais recente. Estamos ainda longe, é claro, de reviver os desvarios cambiais cometidos por esse governo, especialmente entre 1994 e 1998. Mas há sinais inquietantes.

As estimativas de rentabilidade das exportações e do movimento da taxa de câmbio real, mesmo em relação a uma “cesta” de moedas, estão indicando perdas importantes para os setores que exportam e para os que competem com importações no mercado interno (ver, por exemplo, Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior, Boletim Funcex de Comércio Exterior, dezembro de 2004, em www.funcex.com.br). Nos meses recentes, as importações dispararam e vêm crescendo em ritmo superior ao das exportações. Em dezembro, as importações aumentaram nada menos que 36% em relação a igual mês de 2003, refletindo o fortalecimento do real e também a recuperação da economia brasileira.

Em 2005, o cenário externo dificilmente será tão favorável quanto em 2004. A expansão do comércio mundial será provavelmente menor e os preços de diversas commodities exportadas pelo Brasil devem diminuir. Generaliza-se a expectativa de que a taxa de crescimento das exportações e o saldo comercial do país sofrerão queda substancial em 2005.

Dado o peso das despesas externas de juros e os nossos déficits com outras rendas e serviços, um superávit comercial inferior a US$ 25 bilhões já trará de volta o déficit em conta corrente. Esse déficit se somará a amortizações da dívida externa de cerca de US$ 42 bilhões em 2005 (incluindo pagamentos de principal ao Fundo Monetário Internacional e de empréstimos intercompanhias). Como as reservas brasileiras são modestas, uma deterioração mais grave do quadro mundial fará reaparecer a nossa fragilidade externa.

Por isso, imposto a voz e renovo o apelo: Erros novos, por favor!

Paulo Nogueira Batista Jr., economista e professor da FGV-EAESP, é autor do livro “A Economia como Ela É …” (Boitempo Editorial, 3ª edição, 2002). Escreve às terças-feiras na Agência Carta Maior. E-mail: pnbjr@attglobal.net