Estilista britânica desperta consciência em desfiles

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Publicado sexta-feira, 26 de setembro de 2003 as 00:35, por: cdb

A estilista britânica Katharine Hamnett é militante ativa contra a guerra, a poluição, armas nucleares e a dívida dos países em desenvolvimento. Ela nunca teve muita paciência com o puxa-saquismo e a superficialidade do mundo fashion.
 
– Outro dia eu estava num evento de moda e percebi que não estava interessada em nada do que as pessoas queriam conversar, enquanto elas não estavam interessadas em nada do que eu queria falar. Fui para casa mais cedo – conta.

– Eu acabara de voltar do Mali, onde conheci uma mulher de 22 anos que tinha tido sete filhos, três dos quais morreram de desnutrição – disse em entrevista após o desfile de sua coleção na Semana de Moda de Londres, na última quarta-feira.
 
– Diante disso, fica difícil encontrar tempo para falar bobagens sobre moda – completou.
 
Hamnett, 56 anos, virou a consciência social de um setor da economia que busca a maior parte de seus recursos no mundo em desenvolvimento, mas vende quase todos seus produtos acabados para consumidores endinheirados do Ocidente.
 
Desde que criou sua própria grife, em 1979, ela já pôs dezenas de modelos para desfilar diante das câmeras do mundo em camisetas estampadas com slogans de campanhas. Sua coleção primavera/verão 2004 não foi exceção.
 
O ponto alto do desfile foi o surgimento da supermodelo Naomi Campbell usando uma minúscula regata preta com os dizeres ‘Use Camisinha’ cravejados em diamantes.
 
Outras modelos usavam camisetas largas com slogans como ‘Salve a África: Por um Comércio Justo’ e ‘Salve a África: Use Camisinha’.
 
Colocar Naomi Campbell como porta-voz de sua campanha pode parecer arriscado. Afinal, trata-se da supermodelo que condenou o uso de peles na moda mas, depois, foi despedida pelos organizadores da campanha por ter aparecido vestida num casaco de peles.
 
Mas Hamnett acha que esse problema não vai se repetir com sua campanha de conscientização da Aids e em favor de acordos comerciais justos para a África.
 
– O que Naomi vai fazer? Será que vai se contradizer, dizendo ‘não usem camisinha’ ou ‘vamos todos contrair o HIV’. Acho que não – falou a estilista.
 
A estilista explicou que Campbell, a modelo negra mais conhecida do mundo, é a garota-propaganda para uma campanha voltada principalmente à África subsaariana, onde o HIV e a Aids se alastram sem parar.
 
– Ela é um ícone em países como a África do Sul. Desenhei a regata dois anos atrás e desde então venho procurando Naomi para que ela trabalhasse conosco – disse Hamnett.
 
Não é a primeira vez que Hamnett faz campanha pela conscientização da Aids. Na década de 1980, ela desenhou uma linha de roupas masculinas com bolsos para levar camisinhas. Mais recentemente ela vem tentando convencer os fabricantes de roupas a usar algodão orgânico de fontes sustentáveis.

Quase um quarto de século depois de criar sua própria empresa, ela ainda acredita no poder do consumidor de modificar os hábitos das grandes empresas.
 
– O consumidor se preocupa com as questões sociais e não quer ver suas mãos manchadas de sangue – explicou.