Estamos aí, mr. President

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Publicado segunda-feira, 29 de outubro de 2001 as 20:56, por: cdb

O que é a vida, hein?
Quem diria que depois do ataque terrorista às torres gêmeas e ao Pentágono, o Brasil se tornaria essa potência emergente-maravilha mostrada incansavelmente em telejornais, talk-shows, programas de auditório? Nem Nostradamus contava com essa façanha.
De cara, passamos a ser um paraíso para onde toda a humanidade deseja convergir. Um Éden de instituições seguras, espaços públicos preservados, direitos individuais e coletivos respeitados. Os pobres desgraçados são os Estados Unidos da América. Eles, sim, têm e terão problemas seriíssimos. Antraz, chuva de boeings, terroristas escondidos na Estátua da Liberdade. E gigantescos problemas econômicos. Ah, pobres ianques. O consumo vai cair, a águia vai pousar, ai que dó!
Quando a gente vê a cara apoplética de George Filho na CNN não dá vontade de ligar para o banco e emitir um DOC em nome da Casa Branca?
Nós não. Caminhamos a passos largos para o azul.
Está certo que vendemos nossas principais estatais na “bacia das almas” e que quase não existem mais empresas de médio e grande porte de capital nacional. Está certo que os 50 bilhões de dólares angariados com a venda das estatais foram para o lixo honrando o pagamento de juros estapafúrdios que garantem lucros mais altos que o World Trade Center a especuladores e banqueiros.
Mas, pôxa, pelo menos não levamos um baque desses – nossa índole é cordial e ainda por cima não temos terremotos, vendavais ou vulcões.
Pena ainda existir tanta gente negativista que fica pregando a sinistrose no Brasil. Gritam que o desemprego na região metropolitana de São Paulo está acima de 17%. Que falta educação, saúde, segurança. Imaginem que esses fariseus até criticam o governador do Estado mais rico da federação por ter largado a coisa pública para negociar a libertação do dono do Baú. Mas o que ele poderia fazer? Ficar no palácio jogando paciência e ainda por cima impedido de ver o seu “Show do Milhão”?
Gente mais raté.
Tipos que apostam na crise; não querem enxergar nossos avanços no crime organizado, na lavagem de dinheiro, no futebol. Isso mesmo: futebol. Ou ganhar do Chile em casa é mole?
Precisamos formar uma grande corrente e colaborar com George W. Bush. E, com o tempo, dar também uma força à moçada humilde, mas limpinha, do G-7.
A atitude do povo brasileiro historicamente sempre foi a de estender a mão aos irmãos, especialmente os da América, nos momentos de fraqueza. Foi assim quando nos pediram, quase de joelhos, para que ajudássemos o FMI a dar lucro. Foi assim em 1964, quando imploraram para que transformássemos a CIA num serviço de inteligência ISO 9000. Por que agora seria diferente?
Conte conosco, Mr. President. Nossas carcaças de bois, nossas crianças tuberculosas, nossas empresas falidas, nossos velhos coxos e inadimplentes, nossos professores-pedintes, nossas matas carbonizadas, nossos rios oleosos, nossos pássaros cegos – tudo o que ainda nos resta está à sua inteira disposição.

* Carlos Castelo Branco é autor dos livros “O Caseiro do Presidente” (Nova Alexandria) e “Guia de Sobrevivência no Brasil” (Matrix Editora)