Esses eu agarântio

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Publicado segunda-feira, 7 de outubro de 2002 as 19:45, por: cdb

A galeria de tipos engraçados na televisão, uma fila que começa no Zé Bonitinho, do Jorge Loredo, passa pelo Coronel Limoeiro, do Chico Anysio, ô Crideee, do Ronald Golias, o Capitão Gay, do Jô, e chega ao João Canabrava, do Tom Cavalcanti, tem dois novos companheiros da pesada: Tati, a personagem de Heloísa Perisé, no Fantástico, e Seu Creysson, de Claudio Manoel, no Casseta e Planeta. Não é a primeira vez que os programas de humor recorrem à adolescente espevitada e ao sujeito horrorível que fala tudo errádchio. Mas nunca esses personagens, que já estavam de alguma forma sentados no banco da Praça da Alegria, estreado por Manoel da Nóbrega na Record em 1957, foram feitos com tamanha originalidade e inteligência.

Tati e Seu Creysson são duas boas exceções num momento sem grandes novidades no humor televisivo. Hermes e Renato, a única aposta no gênero feita pela moderninha MTV, é um fiasco absoluto na tentativa de fazer rir com escatologia, grosseria e nonsense adolescente. A fórmula é radical e atraente. Mas falta talento. Não acertam em nenhum dos três quesitos. Zorra Total e A Praça é Nossa continuam abrindo os velhos almanaques e reciclando piadas que Haroldo Barbosa, segundo críticas de Antônio Maria, já reescrevia dos livros ingleses nos humorísticos da Mayrink Veiga. Vige ainda a fórmula de sempre: gays tremelicam, gostosonas arrebitam – e a miséria cultural brasileira ri amarelo em casa. O futuro é de risco. Pode ser que um governo petista iniba o riso sobre os fracassados sociais e atravanque ainda mais o processo criativo. O Lulinha paz e amor promete emprego e justiça social. Mas ninguém sabe até onde o barbudo enfezado da porta dos sindicatos vai inspirar o riso do politicamente incorreto.

Há dez anos na Rede Globo, a turma do Casseta e Planeta vem enfileirando um trenzinho – uêpa! – de personagens de sucesso. Debocha-se, avacalha-se. Zombam da fé, os insensatos. Com paciência, inteligência e uma média de riso espetacular, os sete humoristas da trupê vão arreganhando com muito duplo sentido os limites do permitido numa grande rede. Graças a eles hoje é permitido gozar na cara – uêpa! – até dos programas globais. No caso das Organizações Capivara do ‘seu’ Creysson a paródia é com o próprio Casseta. Elas surgiram para rivalizar com as Organizações Tabajara, empresa fictícia de televendas que anuncia (“Seus problemas acabaram!”) produtos como o Gay Dissimulator Tabajara, um revolucionário aparelho que conserta munhecas para você não dar bandeira. Os produtos de seu Creysson, que vem acompanhado do plus a mais de se expressar num português todo seu, não são muito diferentes, mas são mais baratos (“Eu garântio!”). O Quiti di Prástica Populá, adquirido pela mãe de Tati, é um aspirador de pó que chupa as banhas da véia e joga num rolo de filme de prástico, daqueles que embrulham alimentios.

O quadro de Heloísa Perissé ocupa cinco minutos do Fantástico e está no ar há três anos, desde que estreou na Escolinha do Professor Raimundo. Passou pelo teatro também e é um dos responsáveis pelo arrasa quarteirão da peça Cócegas. Tati só pode ser feita por Heloísa. A atriz captou todos os tiques da adolescente moderna, um ser que coloca na expressão facial todo o vocabulário que lhe falta. Assim como o seu Creysson, ela também vai tentando adaptar a língua portuguesa ao seu jeito de viver. As vírgulas, por exemplo, foram todas substituídas pela expressão “tipo assim”. No resto do texto, que na televisão é escrito por Bruno Mazzeo, Taty vai encaixando “caraca”, “maneiro”, “sabe como”. “Cara, eu amo muito o Lovely Beautiful”, disse no programa de domingo, “é uma coisa tipo assim, sabe como?, de vidas passadas.”

Os dois personagens não usam piadas velhas, inclusive porque não usam piada alguma. Taty joga parte do seu charme na observação do comportamento dos adolescentes, no ridículo que é ter a mãe ao lado, pagando mico, aos gritos, tiete alucinada, no mesmo show do Lovely Beautiful em que ela está com as amigas. São p