Esperando Bento XVI

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Publicado segunda-feira, 26 de março de 2012 as 11:22, por: cdb

Denver, 22de março de 2012

Nasegunda-feira, 26 de março, Bento XVI chegará a Santiago de Cuba. O Papaencontrará um país em transformação, não só nas reformas econômicasimpulsionadas pelo governo de b, mas também pelas mudanças sociais que a Ilha esuas Diásporas têm vivido na última década. Em 1998, João Paulo II conheceu umaCuba onde a paralisia antimercado e a perpetuação ideológica da guerra fria emambas as orlas do Estreito de Flórida, propiciaram um agregado crescente deproblemas; Bento XVI chegará a uma ilha em transição onde, tanto o estado comoa sociedade civil, fazem propostas para enfrentar essa crise, que dura já maisde 20 anos. Um consenso nacional advoga por avançar para padrões internacionaisde direitos humanos e uma economia mista.

Nestecontexto a visita papal contribui à agenda do governo cubano em três níveis: a)consolida o diálogo institucional entre a administração de Raúl Castro e aIgreja Católica, criando incentivos para que esta última participe de formaordenada na renovação do sistema vigente, b) contribui para criar um ambienteinternacional favorável aos projetos de abertura e reforma ainda sem abandonaro regime de apenas um partido e c) reforça a imagem de um país em transiçãofrente ao qual se elevam os custos da rígida posição norte-americana deisolamento contra a Ilha.

Um elementocentral da adaptação estratégica da Igreja Católica para a defesa dasliberdades religiosas, dentro do sistema pós-revolucionário tem sido asequência na recuperação de espaços sociais. Diferente à oposição políticaradical que, através de atos dramáticos (como as recentes ocupações deparóquias pelo quase desconhecido Partido Republicano de Cuba, apoiadas desdeWashington pelo cubano-americano de direita Mauricio Claver-Carone para “aguara festa do Cardeal Ortega”), reivindica a aceitação de um pluralismo malorganizado sem relevância popular, a Igreja recupera gradualmente espaçossociais, e depois, negocia o reconhecimento dos mesmos. O Episcopado cubanoreivindicou o direito a peregrinar da Virgen de la Caridad pelos povos de Cubadepois que a presença de fiéis transbordava as paróquias, não antes.

A Igrejaquer expandir sua presença social, de um nacionalismo leal, no qual seusvalores, interesses e ideais são reconhecidos como legítimos, ainda que sejamdiferentes dos postulados pelo Partido Comunista no governo. Nesse sentido,desde a visita do papa João Paulo II em 1998, a Igreja tem expandido seu papelna assistência social, no combate à pobreza e desamparo, e na formação dasnovas gerações.

Sua extensarede tem contribuído na ampliação das liberdades religiosas, de reunião eexpressão na Ilha. Desde a ascensão ao poder de Raúl Castro, com seu novoestilo de governo, a Igreja também tem dado voz às propostas de reformas eaberturas graduais. Um importante questionamento é se além do novo Semináriocatólico, o governo reconhecerá oficialmente novos centros de formação eelaboração de pensamento social-cristão, como é o caso do Centro Cultural PadreFélix Varela, permitindo-lhes desenvolver sua tarefa em condições denormalidade.

Naspropostas que circulam na “esfera pública” da Ilha é possível rastrear um arcoideológico diverso. As comunidades religiosas advogam por um diálogo inclusivocom movimentos de reivindicação feminina, ambientalista, de defesa dosconsumidores, e dos setores afrodescendentes. O gerenciamento eficaz destapluralidade, no presente, está diretamente conectado com a capacidade degarantir a governabilidade futura em Cuba. É por isso que facilitar o diálogo ea civilidade ente cubanos de posturas políticas diversas constitui um eixocentral de diferentes atores nacionais, incluídas as comunidades de fé.

A visitapapal deve consolidar o papel social das comunidades religiosas comoparticipantes ativos na gestão de um novo modelo econômico-social cubano. Aexpansão do gerenciamento das comunidades religiosas não se limitará à IgrejaCatólica, pois as portas abertas pela mesma serão usadas pelos outros grupos defé. A preparação desse novo modelo deve resultar em um trânsito para um sistemapolítico mais pluralista e uma economia com maior participação do mercado semperder o importante setor de benefício social na educação e saúde, desenvolvidonas últimas décadas.

O diálogo dopresidente Raúl Castro com a Igreja Católica em seu mais alto nível, através doSumo Pontífice, e o Cardeal Ortega elevará o perfil dos Bispos comointerlocutores legítimos dentro dosistema político cubano. Tal passo tem consequências no interior do PartidoComunista, onde existem setores que mantêm suspeitas contra qualquer tipo depluralismo não comunista, inclusive para organizações como a Igreja Católica,com posturas de clara rejeição às tentativas intervencionistas associadas àpolítica norte-americana derivada da Lei Helms-Burton.

Outro passosimbólico bem-vindo será a proclamação do padre Félix Varela na condição de”venerável”, pois com este gesto se eleva o independentismo fundacional e oenfoque gradual-reconciliador a opção preferida da Igreja cubana na véspera do160º aniversário de sua morte em 2013.

É outrosinal que expressa as potencialidades de uma narrativa histórica nacionalista,não isenta de desafios e limites, promovida de modo não partidário, pelaorganização maior e importante da sociedade civil cubana. Esta visita a Cuba doBispo de Roma, diferente do ocorrido em 1998 com o Papa Wojtyla, contou com oapoio entusiasta do Bispo de Miami Thomas Wenski e vários bisposcubano-americanos como Felipe Estévez de St. Augustine, onde faleceu o PadreVarela em 1853. A presença de cubanos emigrados na ilha a propósito da visitapapal e o ano jubileu de 2012, acelerarão as aberturas que têm lugar de modogradual dentro da sociedade cubana, nas relações entre Cuba e sua Diáspora e nolucro de um ambiente internacional mais favorável aos processos de mudança emCuba.

Emconcordância com sua doutrina social, a Igreja cubana é um nó articulador entresetores cubanos nacionalistas e partidários da justiça e a equidade na ilha e adiáspora, no governo e fora do mesmo. A normalização de espaços de pensamentoda Igreja Católica, para expressar um nacionalismo responsável, de oposiçãoleal ou apoio condicionado, favorece a expansão gradual do pluralismo jáexistente. Tal postura contém uma implícita rejeição às propostas radicais de estadismototalitário e capitalismo neoliberal. A visita de Bento XVI contribuirá paraque a Igreja avance em seu gerenciamento de reconciliação, a favor dodesenvolvimento, da abertura gradual e da moderação.

[Artigoescrito com Lenier González, vice-editor da revista Espacio Laical do Conselhode Laicos da Arquidiocese de la Habana. Se graduou em Comunicação Social naUniversidade de La Habana.
Fuente y traducción: Infolatam – http://www.infolatam.com.br]