Escolas de samba do Rio trazem enredos históricos

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Publicado sábado, 13 de setembro de 2003 as 21:33, por: cdb

Corações saudosos vão disparar na avenida do Carnaval carioca de 2004. De volta ao passado, algumas das principais escolas de samba do Rio de Janeiro decidiram homenagear os 20 anos da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), resgatando sambas que marcaram história.

Em clima de harmonia, as três escolas de Madureira, bairro do subúrbio do Rio onde o samba nasceu, vão tentar adaptar para o presente espetáculos de uma época em que escolas com dois mil integrantes eram consideradas grandes e não havia marcação de tempo para atravessar a passarela. A Liesa foi fundada em julho de 1984, por dez escolas.

A Portela, berço do samba e uma das mais antigas escolas da cidade, vai trazer de volta o enredo “Lendas e Mistérios da Amazônia”, que lhe deu seu último campeonato sozinha, em 1970. É uma tentativa de voltar a brilhar depois de 20 anos sem o título de campeã, em 1984 dividiu o primeiro lugar com a Mangueira.

A escola, assim como as outras que optaram por esse caminho, terá que ser criativa para ultrapassar a barreira do tempo que separa o carnaval de hoje ao de outrora.

– Era um outro ritmo, mais lento, as escolas eram menores, o triunfo de ter um bom samba este ano pode ter um efeito contrário ao colocar um novo ritmo, com o tempo sendo cronometrado – alerta o estudioso do carnaval carioca Sérgio Adriano.

Tradição

O mesmo cuidado também vale para a Tradição, caçula entre as grandes e nascida de uma cisão ocorrida em 1984 na Portela. E é da matriz que vem o carnaval do ano que vem da escola, que escolheu justamente o último samba apresentado em conjunto, em 1984, o místico “Contos de Areia”, para comemorar os 20 anos também do Sambódromo.

O samba-enredo é uma homenagem a três personalidades idolatradas nas duas escolas: Paulo da Portela, Clara Nunes e Natal, este último testemunha do nascimento da Portela no quintal da sua casa. A emoção vai ser especialmente forte para um de seus herdeiros, Nésio Nascimento, que na cisão optou pela Tradição, hoje presidida por ele.

Além de ter dado mais um campeonato para a Portela, “Contos de Areia” inovou trazendo pela primeira vez uma coreografia para a avenida, conta Nascimento. “Foi um enredo muito marcante e será de novo, vamos trazer o passado mas usando a modernidade, vai ser muita emoção”, prevê Nascimento, que não vê problema em juntar a tecnologia de hoje à qualidade do samba do passado. “Vai dar tudo certo”, decreta.

Seguindo suas vizinhas de bairro, a Império Serrano, outra com sede de título, foi ainda mais fundo e resgatou o clássico “Aquarela Brasileira”, de Silas de Oliveira, do carnaval de 1964, sucesso garantido até hoje em qualquer lugar que toque os inesquecíveis versos “Vejam, essa maravilha de cenário, é um episódio relicário, que o artista num sonho genial, escolheu para este carnaval”.

– Sambas como este não existem mais. Hoje, vários autores fazem um mesmo samba e fica tudo fracionado, sem sentido – avalia o escritor e produtor Zuza Homem de Mello, que só lamenta que essa volta ao passado não aconteça todos os anos.

Viradouro

Do outro lado da baía de Guanabara, no entanto, a festa ameaça realmente atravessar. De última hora, o presidente da Viradouro, que já perdeu a musa da escola Luma de Oliveira após sucessivos desentendimentos, interrompeu o processo de escolha do samba para usar um sucesso de outra escola.

A escolha foi o samba-enredo de 1975 da São Carlos, hoje Estácio de Sá, que canta a festa paraense do “Círio de Nazaré”. O tema da escola, sob patrocínio governamental, será a cultura do Estado do Pará.

Por causa da polêmica ainda há quem duvide que a escola chegue até o fim com a idéia. Mas, para os amantes da festa de Momo, isso pouco importa. Nos dias 22 e 23 de fevereiro a festa começa e as confusões, como todo Carnaval, não sobrevivem até depois da Quarta-feira de Cinzas.