Entre Pinochet e Fidel

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Publicado segunda-feira, 2 de junho de 2003 as 11:27, por: cdb

Baltasar Gárzon Real, o pequeno Balta, estava trancado num seminário espanhol nos idos de 70 enquanto o general Augusto Pinochet mandava e desmandava do outro lado do mundo, no Chile, proporciando o terror da ditadura que poucos hoje resgatam na memória. Desde então, passaram-
se 30 anos para o estrelato do garoto que deixou o seminário por causa de uma namorada. Os destinos de Gárzon e Pinochet se cruzaram em 1998, quando o espanhol, na condição de juiz com poderes de julgar
crimes de terrorismo e contra os direitos humanos, conseguiu um mandado de prisão do general enfermo, em Londres.

O episódio rendeu a Gárzon o reconhecimento internacional. Mas ele já era conhecido em seu país pelas prisões sucessivas de terroristas do ETA (milícia que recorre a atentados na luta pela libertação do país
Basco) – lá, Gárzon só anda com quatro seguranças; dois deles fizeram a escolta do juiz no Rio, semana passada, quando conheceu o Pão de Açúcar. É pausado na fala, mas não perdoa quem considera corrupto. De suas mãos já partiram mandados de prisão contra o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi – por sonegação -, e contra um cunhado
do ex-presidente argentino Carlos Menem, por lavagem de dinheiro do tráfico.

Atualmente trabalha na 5ª Vara da Audiência Nacional, na
Espanha – um tribunal sem similar no Brasil, que foi criado em 1977, após a ditadura franquista, para investigar, sem limites territoriais, os casos de terrorismo, narcotráfico e lavagem de dinheiro. Foi lá que nasceu a idéia de “um sistema de normas comuns entre os países e um espaço judiciário único para o combate ao
narcotráfico na Europa”, que defende com afinco, como mostrou em palestra realizada na PUC-Rio esse mês. Mostra-se um dom Quixote realista. Sua luta pela justiça vai além dos direitos humanos. Sonha com a queda das “fronteiras judiciárias” na União Européia para o
combate efetivo ao crime organizado – inclui nisso os países do Mercosul -, ao passo que admite ser “um esquema muito complexo” o caminho junto às instituições financeiras – que, segundo ele, dificultam o acesso às informações do escoamento do dinheiro do narcotráfico.

A eloqüência de juiz de renome esbarra, no entanto, ao analisar o caso de Fidel Castro. Diante da pergunta se prenderia ou não Fidel pelo fuzilamento de cubanos dissidentes (lembremos do fato de ele ter pedido a prisão de Pinochet), esquiva-se da resposta. “Não quero
me manifestar sobre isso. Sou absolutamente contrário à pena de morte e contra as violações dos direitos humanos. Isso é inaceitável” – disse-me, deixando no ar a dúvida se julgaria Fidel se um dia o líder cubano vier a se afastar do poder, como Pinochet. E voltou a desconversar: “Cuba tem suas normas. Formalmente deve-se analisar muito esse caso do fuzilamento”.

Pinochet sabe bem o que é isso.

Leandro Mazzini é jornalista.