Entre museus e petróleo

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Publicado quarta-feira, 18 de junho de 2003 as 21:56, por: cdb

Se fosse necessário algo mais para desmascarar os argumentos de que a guerra do Iraque não se assentava em interesses petrolíferos – como colunistas brasileiros, mais bushistas que o próprio Bush, correram para argumentar -, bastaria olhar para como foram tratados os poços de petróleo e os museus do Iraque. A primeira medida militar de ocupação foi a de proteger os poços e comemorar essa ação. O botim estava garantido. Nenhum dano foi causado ao rico capital petrolífero iraquiano.
Enquanto isso, para terminar com qualquer ilusão de que se trataria de uma “guerra de libertação” do povo iraquiano, os museus – espaço de afirmação e testemunho da identidade desse povo – foram saqueados impunemente. Nenhuma guarda, nenhuma proteção, nada que pelo menos disfarçasse o valor da cotação do petróleo na política dos EUA e o das tradições culturais.

Esses apressados cronistas merecem aquela frase: “É o petróleo, estúpidos”, embora haja muito mais na nova política imperial dos EUA.

No dia 22 de maio o Conselho de Segurança da ONU aprovou a suspensão das sanções ao Iraque, depois de 13 anos de sua dura aplicação, com danos humanos incomensuráveis por qualquer cotação nas bolsas. A resolução colocou o botim do petróleo firmemente nas mãos do governo norte-americano e das corporações privadas que o compõem.

A resolução cria um “Fundo de Desenvolvimento para o Iraque” – que tem inicialmente 13 bilhões de dólares e que pode arrecadar cerca de outros 20 bilhões por ano, supostamente para a reconstrução do país destruído pelos bombardeios norte-americanos e britânicos. O povo iraquiano não decidirá nada a respeito da utilização desse fundos, embora seja a principal vítima da guerra.

Os fundos serão depositados no Banco Central do Iraque, dirigido por Peter McPherson, um ex-secretário do Tesouro dos EUA e atualmente executivo do Banco da América. Ele terá um corpo de conselheiros que incluirá representantes do FMI e Banco Mundial. Assim os recursos estão solidamente em mãos norte-americanas.

E não há limite para o controle norte-americano dos recursos do petróleo iraquiano. Os acordos terão vigência até que “um governo representativo do Iraque, reconhecido internacionalmente, seja constituído” – um processo que deve levar vários anos. Enquanto isso os governos dos EUA e da Grã-Bretanha poderão vetar qualquer nova resolução do Conselho de Segurança que porventura deseje mudar os acordos votados.

A segunda guerra do Iraque confirma assim as confissões de Bush pai, que em suas memórias liquidava qualquer ilusão de que a primeira pudesse ter sido feita em nome da liberdade do Kuait. Segundo ele, dezenas de países invadem outros pelo mundo afora, mas nenhum – como confessou agora o sub-secretário de defesa do EUA – nada em um mar de petróleo.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “Século XX – Uma biografia não autorizada” (Editora Fundação Perseu Abramo) e “Contraversões (com Frei Betto, Editora Boitempo).