Em torno de Marx e Noel

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 10 de janeiro de 2011 as 14:35, por: cdb

Em torno de Marx é um ensaio de enorme valia para todos aqueles que nunca subestimaram a dimensão filosófica da obra de Karl Marx

 

10/01/2011

 

Luiz Ricardo Leitão

 

Leandro Konder esperou pacientemente por dezembro e, com a verve de um Noel paganíssimo, brindou-nos em dose dupla, assumindo sua cátedra de cronista neste brioso semanário e, de quebra, publicando mais um trabalho marxiano de rara argúcia e sutileza. Admirador antigo do autor, não hesito em recomendar aos nossos leitores a prazerosa leitura do recém-lançado, cuja importância para a construção do conhecimento no mundo ocidental nem sequer os sacerdotes do credo neoliberal logram ignorar.

Apesar de fustigado por contratempos de saúde, Konder não arrefece e continua a provocar-nos fecundas reflexões desde sua trincheira na “batalha das ideias”. Para quem se admira de tanta coerência e resistência, cabe aqui revelar o segredo da tenacidade: o mestre se cuida à base de doses diárias de pura dialética, sorvidas de um composto terapêutico bastante conhecido, mas pouco experimentado, que se chama práxis. Ou seja: sem jamais prescindir da teoria, ele congrega suas energias criadoras a fim de conceber lúcidas respostas para os desafios concretos que a realidade objetiva nos postula.

Em tempos de refluxo do movimento de massas e de severa revisão do próprio legado de Marx, os textos reunidos neste volume são um ótimo aperitivo para quem ainda julga que a principal tarefa dos filósofos não é apenas interpretar o mundo, mas, sim, transformá-lo. Afinal de contas, mesmo acuado pela crise financeira do Velho Mundo, o pensamento conservador não deixa de manifestar-se com vigor – e até com furor – na mídia e na academia globalizada, como fez há dois meses o Prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, em palestra proferida em Princeton (EUA), quando declarou, literalmente, que a razão crítica no pós-68 não produziu muitas vezes mais do que uma “inútil masturbação”.

Se o leitor suspeita que tenciono patrocinar uma confraria (ou seria quadrilha?) de cronistas no Brasil de Fato, vale a pena ler os singelos ensaios da I Parte (“Marx e a Moral”, “Marx e a Religião”, “Marx e a Dialética”, entre outros) ou as digressões tecidas por Konder na II Parte sobre alguns dos mais brilhantes herdeiros do filósofo-militante alemão, tais como Adorno, Benjamin, Lukács e Gramsci. Contudo, caso o livro não esteja à mão, basta conferir aqui mesmo, nesta subversiva gazeta, sua crônica dedicada ao centenário do filósofo do samba, o inigualável Noel Rosa.

Mestre Leandro identifica no Poeta da Vila uma natureza dialética a que muitos estudiosos nem sempre concedem a devida e necessária atenção. Com a fineza que lhe é peculiar, ele adverte que o artista “combinava perfeitamente a disciplina exigida pela arte, a poesia e a musicalidade”, assim como “a boemia, a disponibilidade para o novo, e um ânimo brincalhão sempre pronto para ser reativado.” E ainda escarnece da crítica, ao lembrar que a unidade dos dois elementos perceptíveis na formação da consciência do compositor (o espírito libertário das canções e a autodisciplina exigida pelo labor artístico) “é um problema para nós, pesquisadores, mas não para ele”…

Oxalá essa maestria em reunir facetas tão opostas do caleidoscópio humano venha a ungir os combatentes populares no limiar de 2011, ano que já prenuncia novos desafios e lutas agudas para o movimento social de Bruzundanga. E haja dose do composto dialético de LK para avaliar com isenção e objetividade o que nos aguarda após o reinado de Lulinha Paz & Amor – uma era de inegável ascensão do país na economia capitalista globalizada, mas de profundas lacunas e equívocos na construção de um projeto alternativo de sociedade igualitária e libertária.

 

Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa – Poeta da Vila, Cronista do Brasil e Lima Barreto: o rebelde imprescindível.