Em meio a troca de acusação, corpo de missionária vai para Anapu

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Publicado segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005 as 21:23, por: cdb

O corpo da missionária norte-americana Dorothy Stang, ligada a trabalhadores rurais e assassinada com seis tiros, seguiu para Anapu, onde será enterrado na terça-feira, em meio a uma série de acusações de omissão por parte de autoridades.

Enquanto as Polícias Civil e Federal procuram os envolvidos, entidades ligadas à defesa dos direitos humanos e à questão agrária questionavam como o assassinato da missionária, de 73 anos, não foi evitado, mesmo diante das inúmeras denúncias públicas sobre as ameaças de morte que ela vinha sofrendo.

“O que a gente espera é que o Estado organize o processo de ocupação territorial da Amazônia e evite os conflitos. Mas infelizmente as providências só são tomadas depois de mortes como essa”, afirmou o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Pará, Jax Pinto.

O nome da freira Dorothy Stang –naturalizada brasileira– era o 14o de uma lista divulgada no final do ano passado pela CPT com 26 pessoas marcadas para morrer no Pará.

Jax Pinto atribuiu o assassinato da missionária ao mesmo problema que, segundo ele, provocou a morte de 151 pessoas em conflitos agrários nos últimos dez anos no Pará. “O Estado (brasileiro) não consegue resolver o problema dos latifúndios antigos e está totalmente ausente nas fronteiras de ocupação”, disse.

A presidente da Sociedade Paraense dos Direitos Humanos (SPDDH), Vera Tavares, atribui a culpa à sensação de impunidade e à inoperância dos órgãos do Estado, no que diz respeito à reforma agrária, segurança pública, questão ambiental e à própria Justiça.

“Os processos são tão lentos devido a tantos interesses que a vida humana é a última a ser preservada”, disse.

Em 2003, a entidade entregou em Belém uma lista com o nome de 39 pessoas ameaçadas de morte no Pará ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. As ameaças de morte também foram temas de reuniões com representantes da cúpula da segurança pública do Pará em 2004 e no início deste ano.

O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Anapu, Jurandir Plínio de Souza, que lamentou o assassinato, direcionou suas críticas contra o governo federal.

“Nós tínhamos pensamentos antagônicos em alguns pontos. Mas ao meu ver o trabalho dela era fundamental. O Incra tem uma parcela de culpa muito grande porque demorou em demarcar essa área”, afirmou ele, que também é presidente da Câmara de Vereadores do município.

As ameaças de morte a Dorothy Stang, feitas há pelo menos quatro anos, também foram denuncias à Organização das Nações Unidas (ONU). A Sociedade Paraense dos Direitos Humanos relatou o caso a dois relatores da ONU que estiveram em Belém do Pará durante visita ao Brasil.

Em 2003, a relatora da ONU para execuções sumárias, Asma Jahingir, recebeu um relatório que descrevia as ameaças sofridas pela freira e por outros trabalhadores rurais no Pará. O mesmo foi feito durante a visita do relator da ONU pela independência do Judiciário, Leandro Despoy, em outubro do ano passado.

O ministro Nilmário Miranda, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, afirmou que não haverá impunidade.

“Esse crime tem muitas informações, muitos antecedentes, muitas testemunhas … laudo do IML. Há elementos suficientes para impedir a impunidade”, afirmou à Agência Brasil o ministro.

Para a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, trata-se de um crime contra os direitos humanos e as autoridades saberão como agir. “Tudo aquilo que venha a contribuir para pôr um basta naqueles que atacam os defensores dos direitos humanos, como a irmã Dorothy, é uma contribuição do Estado de direito”, afirmou a ministra.

De Anapu, município no oeste do Pará, onde Dorothy foi assassinada, a polícia informou à Reuters que um fazendeiro da região teria ligação com o crime. “Os mandantes são grandes proprietários de terra que contrataram pistoleiros para executar a freira”, disse o delegado da Polícia Civil Marcelo Luz.

Equipes da Polícia Civil estão na região da rodovia Transamazônica tentando chegar a u