Em Evian, linguagem corporal é mais forte que as palavras

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Publicado segunda-feira, 2 de junho de 2003 as 19:30, por: cdb

O forte aperto de mãos entre o estranho casal transatlântico, o presidente Bush e o presidente Jacques Chirac da França, finalmente aconteceu aqui em uma quente e úmida tarde às margens do Lago Genebra.

Ele foi, no final das contas, uma decepção dramática e um sucesso diplomático: conveniente, acompanhado por uma conversa educada, mas sem um reflexo dos sentimentos dos dois homens.

O que era bem mais marcante era assistir Bush em um terraço cheio de flores no Hotel Royal – com Chirac ao seu lado – trabalhando como corretores do poder global. O primeiro-ministro Silvio Berlusconi da Itália, que apoiou Bush na questão iraquiana, recebeu um grande aperto no pescoço.

O primeiro-ministro Junichiro Koizumi do Japão, que, no final de maio, passou duras horas ao redor da piscina de Bush em seu rancho no Texas (e que o apoiou no Iraque), recebeu um braço ao redor das costas. O primeiro-ministro Tony Blair da Grã-Bretanha, o maior aliado do presidente na guerra, recebeu um descontraído aperto de mão, como se fosse um dos irmãos de fraternidade de Bush em Yale.

Este encontro anual de cúpula dos principais países industrializados do mundo mais a Rússia, conhecido como G-8, tem uma agenda oficial cheia de conversas agendadas sobre o Iraque, o Oriente Médio, os problemas nucleares da Coréia do Norte e do Irã, a Aids, pobreza e o dólar.

Mas por baixo, tudo não passa de uma tumultuada reunião familiar, um daqueles encontros que todos são obrigados a ir, e este ano ele acontece depois de uma das maiores brigas em décadas. A própria organização do G-8 de quatro contra quatro já aumenta a tensão. Os EUA, Grã-Bretanha, Itália e Japão apoiaram a guerra; França, Alemanha, Rússia e Canadá não.

Por isso, no último domingo, nesta sonolenta, terrivelmente desatualizada cidade de spas, um grande cassino e a água que leva seu nome, ninguém esqueceu o fato de que os amigos de Bush tiveram o tratamento Texas, e que Chirac, em seu primeiro encontro com o presidente americano desde a guerra, recebeu um pouco menos.

Ainda não houve comentário sobre como ele interagiu com o chanceler Gerhard Schroeder, da Alemanha, que não apareceu no encontro até o final da tarde do último domingo, apesar de Bush tê-lo visto no último sábado na Rússia, durante as comemorações do 300º aniversário de São Petersburgo.

Em Evian, a linguagem corporal foi tudo.

“Quanto tempo vocês levaram pensando no aperto de mãos com o presidente Chirac?”, perguntou um correspondente da Casa Branca a um oficial do governo que se reuniu com repórteres a caminho da França a bordo do Air Force One.

“Nenhum”, respondeu o oficial, provocando gargalhadas. “Não, o presidente fará o que presidentes fazem – ele é uma pessoa amigável, ele irá, com certeza, cumprimentar o presidente Chirac, e estamos querendo ver esta cena. Ele teve um encontro com o chanceler Schroeder na noite passada; eles se cumprimentaram”.

O repórter persistiu, “Você sabe que é costumeiro dar dois beijos, certo?”. “Isso apenas se você é francês, eu acho”, respondeu o oficial. “Nós não fazemos isso nos EUA. No Texas eles não fazem isso”.

Uma grande questão era com os habitantes de Evian reagiriam à presença de Bush, que estava aconchegado em uma suíte do Hotel Royal, construído originalmente para satisfazer ao rei Eduardo VII. O consenso, pelo menos entre alguns nativos que puderam ser encontrados ao longo do rio da cidade, é de que eles não gostam do presidente americano e gostaram ainda menos da guerra, mas estavam, apesar de tudo, satisfeitos com sua presença.

“Eu ficaria bem feliz em vê-lo”, disse Julienne Frederique, 35 anos, que trabalha como caixa em um supermercado local. “Nada acontece aqui, por isso estou muito animada”.

Muito menos pareceu acontecer no domingo, quando o lago, que dá visão para a costa suíça e Lausanne, estava praticamente deserto. As pessoas haviam fugido por causa de um longo final de semana e as preocupações de ter os principais líderes mundiais na