Em defesa da covardia

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Publicado segunda-feira, 3 de novembro de 2003 as 18:11, por: cdb

Causou rumor a declaração do presidente Lula sobre serem os presidentes antes dele “covardes” por não terem encaminhado a resolução da dívida social no Brasil. Parte da repercussão era para saber “a quem” o presidente se referia. Tanto a declaração quanto a repercussão partiram de uma tradicional confusão que ainda se faz no Brasil entre o espaço público e o espaço privado e, por extensão, da personalidade pública e da pessoa privada. Como Sérgio Buarque de Holanda definiu em Raízes do Brasil, em 1936, essa confusão é a espinha dorsal do pensamento do homem cordial brasileiro, que leva da vida privada para a vida pública seus afetos e seus desafetos pessoais, vendo o Estado como o mero prolongamento do espaço de seus próprios interesses, amizades e inimizades. À direita, isso em geral vira uma extensão de favores e de perseguições acerbas; à esquerda há uma curiosa conseqüência no plano do tratamento pessoal na vida política.

À direita essa concepção cordial do espaço público vira a base da conceituação patrimonialista do Estado e da política, que apropria aquele como parte do cabedal de bens privados de quem o ocupa. Essa concepção, que é uma concepção de classe, é a base da tradicional corrupção congênita na administração pública brasileira, e que agora o novo governo terá de enfrentar.

À esquerda, o problema da corrupção declina. Mas aparece outro: na vida política tudo é personalizado; nas frases às vezes inflamadas criticam-se ou elogiam-se então pessoas, em vez de criticarem-se idéias, posições, políticas. Isso é uma atitude arraigadíssima em toda a esquerda brasileira; é o seu modo de ser “cordial”, segundo a lição de Sérgio Buarque de Holanda. Sempre reservam-se os melhores elogios e os mais dignos adjetivos para os correligionários, sobretudo se aliaram-se ao nosso lado ontem e necessitam, portanto, de adulação para sentirem-se em casa. Para os adversários, sobretudo se foram do nosso campo até ontem, reservam-se a agudez e o rigor de nossas análises críticas, com nossas palavras que manifestem o maior desprezo pelos seus verdadeiros interesses camuflados até então. Para aqueles, a sala de visitas e o sofá principal; para estes, a porta da rua, de dedo em riste.

É dentro desta tradição que, repito, pertence a toda a esquerda brasileira, que se deve situar a frase do presidente Lula que, se erra na mosca, personalizando a questão, acerta no alvo, pois denuncia uma política de classe que tem sim, dentre seus ademanes, doses regulares de uma certa covardia, às vezes disfarçada de arrogância.

Vamos voltar bem lá atrás, para começar. Não houve uma certa “falta de coragem” no ousado Pedro, que proclamou nossa Independência e baixou uma Constituição à força, em 1824, em nela não enfrentar os latifundiários e estabelecer pelo menos bases firmes para o fim da escravidão? E que dizer de todo o Segundo Reinado, que precisou de uma mulher para se encontrar alguém com coragem de assinar a Lei Áurea? D. Pedro II teve a coragem de dotar o país de uma política externa que nos situasse perante as potências econômicas e militares. Mas não foi covardia o que acabou se fazendo no Paraguai? E não foi sinal de timidez, para dizer o mínimo, manter a política financeira e o Banco do Brasil na mão dos Conservadores, que sistematicamente impediram a democratização do crédito privado e público, reservando-o para financiar suas perdas e seus ganhos? Isso provocou a ruína de Mauá e liquidou o espírito empreendor de nossa burguesia timorata.

E que dizer depois de nossa República dos Coronéis, uns mais ilustrados, outros menos, é verdade, mas todos encastelados nos privilégios do seu liberalismo de meia-sola, reservado só para quem tinha sola grossa no sapato? Não houve covardia em Canudos, no Contestado, nos fuzilamentos que se seguiram à Revolta da Armada, na repressão covarde e suja em Nossa Senhora do Desterro, hoje Florianópolis, comandada por um coronel que se orgulhava de seu apelido: Corta-Cab